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Primeiro Dia do Ano

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Estava aqui pensando: creio que seria interessante se tivéssemos pelo menos um 31 de dezembro e um ano novo por mês. Se fosse possível, creio que seria ainda melhor que tivéssemos um por semana. Quem sabe podíamos definir que a partir de hoje todo sábado será 31 de dezembro, todo domingo primeiro de janeiro, para garantir uma segunda-feira com cara de 02 de janeiro. E para completar, todas as semanas seriam como a primeira semana do ano. Durante o ano nos damos o direito de fofocarmos, sermos preconceituosos, desejarmos o mal para nossos ditos amigos e até celebrar quando nossos desejos acontecem - só os do esqueleto. Mas, quando chegamos a 31 de dezembro, a paz reina, o mundo é belo, nosso amigo que tem opiniões diferentes das nossas são na verdade gente boa e a harmonia reina entre os povos. Mais do que isso, temos tempo para reflexão sobre como foi o ano, o que fizemos, o que devemos melhorar e ainda temos tempo para planejar como será o próximo ano - esse sim será bom, afinal tem...

05 de Julho de 1982

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Não sei se posso dizer que já tive um herói na minha vida, provavelmente não. Para mim, sempre soou e soa estranho quando as pessoas falam de seus heróis. Eu nunca tive um. Se bem que, para ser cem por cento honesto, devo confessar que eu posso ter tido um herói, sim, mas só por um curto período de tempo. Se não tenho tanta certeza sobre um possível herói em minha vida, tenho certeza sobre um inimigo. Sim, eu já tive um inimigo. Seu nome era Paolo Rossi e ele fez o pior que um inimigo pode fazer: ele venceu de uma vez por todas meu único possível herói, e sua vitória foi do tipo de vitória final, vitória da guerra, não apenas de uma batalha, vitória sem discussão e nem segunda chance. Meu candidato a herói não teve sequer outra batalha para tentar se redimir, a guerra estava vencida por meu inimigo.           Lembro muito bem da armadura de meu inimigo em detalhes. Ele vestia calção branco e camiseta azul. Havia o número 20 impresso em branco nas costas...

Bonsais

[Primeiro lugar no Prêmio Barueri de Literatura 2016]   Não há como evitar. Toda manhã quando estou caminhando para o trabalho e passo pela esquina da Summit Avenue com a Moore Street, olho para a minha direita, para a próxima esquina. É um movimento quase automático e inconsciente que faço – mas faço – como se estivesse verificando se aquele prédio marrom de três andares ainda está ali. Creio que é como se eu ainda tivesse alguma esperança de ver nossa vida de volta àquele lugar. Entretanto, sei que o tal lugar que quero de volta não é aquele: o lugar que quero de volta não é um espaço físico; o lugar que quero de volta, para viver novamente, é um lugar no passado, num período de tempo que já se foi, mas que ainda não terminou nas minhas memórias e sonhos. Agora, durante os primeiros dias de outubro, quando as árvores das ruas estão mudando de cor, vindo de verde para tons de amarelos, marrons e uma variedade inacreditável de vermelhos, nosso prédio parece ser parte do ambien...

Noite de São João

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Para os que ainda estão distraídos, hoje é dia de São João, melhor do que isso, hoje é noite de São João. Para nós, no hemisfério sul, a noite mais longa do ano. Para os do norte, a noite mais curta - sei que na verdade, geograficamente falando não o é, pois o solstício ocorreu no dia 21, mas tanto faz. Os antigos costumavam dizer isso, e vamos manter pela poética envolvida. Muita simbologia, muitas crenças e mitos, conforme a religião e a cultura, são comemorados nesse dia e de forma muito parecida. Vamos ver alguns, assim meio por cima mesmo: Já foi comemorado como dia da deusa Juno, esposa de Júpiter, a rainha dos deuses. Era praticamente a Maria da mitologia romana, inclusive com vários nomes, como Juno Lucina, Juno Natalis, Juno Matronalis, etc (qualquer semelhança com as várias Nossas Senhoras não deverá ser mera coincidência). Daí o mês se chamar junho, uma homenagem a ela. E, mesmo antes de Cristo, alguns povos já comemoravam as festas ‘junônias’. Para os cristãos, pr...

A Vela

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Houve um tempo em que acreditavam, alguns, que a vela era milagreira. Que era a vela e não o santo, o orixá, o deus, ou fosse lá a entidade que fosse, que atendia ao pedido. Todo o poder estava na vela. Na vela, em si, havia graça, beleza e poder. Poder do fogo que queima e destrói com sua leveza. Acreditavam que, enquanto a vela queimava, queimava junto o estado atual, queimava junto o indesejado, a doença, a desgraça, o mal, o velho, e ficava só o novo, a mudança, o milagre pronto e exposto para quem havia pedido. O mal virava cinzas e o novo voava e se expandia com o fogo, como a fumaça que se espalha e se mistura ao ar, até se tornar imperceptível.   Naquela época, havia respeito pela crença de cada um, afinal não reconheciam nenhum poder especial nelas. Como numa árvore, onde cada flor, cada fruto e cada galho tem em si a árvore e  é a  própria  árvore , mas o tronco é o que liga todos, também havia, naquele tempo, várias seitas e religiões, mas era a vela o c...

Dirigindo na Neve

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Dirigir na neve, acredite, é um desafio. Principalmente se, como eu, você foi criado num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Assim como quase tudo nesta vida, com o tempo você aprende um pouco, se acostuma um pouco e o desafio parece menor, mas ele ainda existe e persiste. Este, creio, seja o maior desafio sobre dirigir na neve: o desafio sempre muda. Depois de algumas frustrações, atrasos, e vontade de fazer como um cidadão de Dakota do Norte fez e usar um lancha-chamas para derreter toda essa neve, me dei conta que dirigir na neve tem muito a ver com nossa vida, com como lidamos com os problemas e desafios que sempre nos aparecem e que, assim como os da neve, são sempre diferentes. Quando acreditamos que já sabemos tudo, que já passamos por tudo, lá vem um dia sem neve, mas com vento tão forte, que sopra a neve acumulada fora da estrada para dentro da pista e, de surpresa, você tem que dirigir assim, com um vento branco e cheio de neve que lhe atinge de lado...

Sejamos Óbvios

Sejamos óbvios. Os óbvios não assustam, e, obviamente, não supreendem. Quando você não age de acordo com a obviedade, você deixa as demais pessoas perdidas, sem lhe entender, ou, pior, tentando lhe categorizar dentro de algum padrão óbvio que elas já conhece. Consequentemente, elas não lhe entendem, mesmo que você não queira ser entendido. Como não lhe entendem, elas lhe enquadram – pensei em dizer que elas lhe julga, mas achei que criaria algum óbvio mecanismo de defesa nos óbvios – e assim passam a lhe tratar como se você fosse e/ou estivesse passando por aquela situação óbvia, a qual conduziria obviamente à reação que ela acredita que você obviamente teve. Não, não adianta explicar, os óbvios sabem mais que você e têm toda uma sociedade óbvia para lhes dizer que eles estão certos e você errado, ou negando, ou mesmo mentindo, e acabam assim sabendo mais de você do que você mesmo. Então aprenda com eles, se molde e se obvie. Antes de agir espontaneamente, pare e se pergunte: o que co...