Chicago, domingo, 19 de outubro de 2025
Coloque para tocar Geraldo de Azevedo cantando O Ciúme.
Hoje amanheceu chovendo. Na verdade, já chove desde ontem, por volta das 20:00, e agora já são quase meio-dia e o sol não deu as caras ainda, nesse dia da semana nomeado em sua homenagem."Dorme o sol à flor do Chico, meio-dia"
Ontem, assisti ao musical Jesus Cristo Superstar, montagem da Roosevelt University. Mesmo sendo assim, atores e toda a produção composta por alunos, num palco elisabetano com apenas um cenário fixo e uma porta de correr ao fundo, uma banda pequena com instrumentos básicos, uma plateia onde deveria caber cerca de 200 pessoas, aparentemente composta de mais alunos, amigos e familiares dos envolvidos em cena; mesmo assim, foi fantástico. Provavelmente a presença desse público específico contribuiu muito, pois estavam em estado de êxtase desde o início e, por várias vezes, interromperam a apresentação com intermináveis aplausos ao final das cenas, com gritos, ovação e até mesmo aplausos de pé não desmerecidos, embora discutivelmente exagerados.
Na sexta, depois de 20 anos, voltei a assistir uma ópera, Medea. Nesse caso, sim, uma grandiosa produção, com direito à orquestra completa, coral, teatro com capacidade de mais de três mil pessoas lotado, com toda pompa e circunstância que se pode esperar de uma ópera. Atrizes e atores de qualidade absurda desfilando seu talento musical e interpretativo. Cenários deslumbrantes que foram trocados inúmeras vezes de forma imperceptível para o público e com direito a um fogo absolutamente lindo tomando todo o palco na cena final. Sim, era somente imagens projetadas e luzes, mas, sim também, tão vivo e crível como se fosse fogo real.
Creio que óperas são das mais completas formas de arte possíveis, com música, canto, coreografia, encenação, artes plásticas, figurino, quase todas as artes representadas e bem coordenadas no palco. Penso agora, enquanto cito todos esses elementos, nos desfiles de escolas de samba, que, mantendo as devidas proporções, eu equipararia em riqueza artística. Não consigo pensar em nada mais tão rico. De repente os grandes ballets, como alguns poucos que assisti, como Carmen recentemente. Mas ainda coloco ópera e alguns desfiles de escola de samba, como a Beija-Flor de Joãozinho Trinta, vários da Mangueira, da Portela, da Viradouro, como o que deve haver de mais completo e rico em termos de artes acontecendo ao mesmo tempo e de forma coordenada, de qualidade técnica e artística impecáveis.
Por que estou falando disso hoje, dos espetáculos que assisti nos últimos dias, o que normalmente não tenho feito anteriormente? Não sei, mas foram duas noites em seguida que terminei com a alma lavada e elevada, com uma sensação de que a vida vale a pena, apesar de tantas penas por que temos passado.
Acho que também tem a ver com tudo o que tem acontecido contra essa cidade, contra pessoas que vivem aqui, contra quem não deve nada, contra quem está sendo julgado por ter chegado depois à mesma terra roubada anteriormente por outros imigrantes.
Você que não vive nos EUA acredite, aqui o ogro em poder tem atrapalhado muito mais a vida e a paz das pessoas do que longe daqui. Quanto mais próximo, pior fica. E sinto que há muita gente com um "silêncio sorridente", agradecido por alguém estar fazendo o serviço sujo para eles.
Mas não quero focar no que há de pior no ser humano, prefiro voltar para o outro oposto, para a arte. Vai ver que é por isso que resolvi, sem ter realmente resolvido, começar falando dela. Pode ser que algo dentro de mim clamava para falar do que há de bom, de belo e de humano, e confiar no tempo que tudo leva, até a podridão que nos tem sobrevido ultimamente
Ontem também, aqui nessa mesma cidade, mais de duzentas e cinquenta mil pessoas foram às ruas para protestar contra o reizinho pé-de-chinelo em poder. Também ontem, no final do dia, cerca de cem mil pessoas estavam nas ruas participando ou assistindo uma parada, Arts in the Dark, que me foi descrito como "o encontro entre o Carnaval das Artes e o Halloween de rua, mas com a elegância e teatralidade que só Chicago consegue produzir."
Acho que é isso que está pulsando hoje, ver tanta tristeza em cenas revoltantes de pessoas sendo tiradas de casa, separadas de seus filhos, tanto mediocridade e mentira sendo repetida à exaustão, tanto motivo para revolta tão próximo e real, e, ao mesmo tempo, respirar, ver arte pulsando, ver pessoas nas ruas, felizes só por estarem ali assistindo uma parada, andando ao lado de um protesto, vendo seus amigos no palco, sendo contagiados por essa mágica que só a arte produz em nossas almas.
Os seres perversos com suas psicopatias e imbecilidades continuam no poder, mas ainda há arte, ainda a vida pulsando.
"Tanta gente canta, tanta gente cala, tantas almas esticadas no curtume. Sobre toda estrada, sobre toda sala, paira, monstruosa, a sombra do ciúme.”
Talvez essa música tenha vindo porque fala exatamente disso: das vozes que calam e das que insistem em cantar; da dor que se faz beleza.
Talvez seja o desejo de que o mundo fosse "justo", resultado de acreditar que um dia esse mesmo mundo foi injusto conosco.
Talvez o desejo de justiça seja o ciúme amadurecido, o mesmo fogo que, em vez de queimar, agora ilumina.
Ou ainda, seria a arte uma forma de fazer da vida, tão dolorida e sofrida algo belo, como fez Geraldo de Azevedo com o ciúme, um sentimento julgado feio, negativo, destruidor?
Não sei, sinceramente não sei. Sei que me sinto privilegiado por viver essa ambiguidade, entre Petrolinas e Juazeiros, entre o feio e o belo, o que cala e o que canta, e por você estar aqui me lendo.

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