Chicago, domingo, 05 de outubro de 2025

Antes de ler, coloque para tocar "For What It’s Worth", de Buffalo Springfield. 

Como prometido, isso não é uma tradição. Não esperem por crônicas dominicais.

Depois que a música começar, pode começar a ler.

Vamos lá. Acabei de voltar de um café, um daqueles, comuns aqui nos EUA, onde tem café, obviamente, e pastries. Devido à falta de uma tradução direta, se você não sabe o que são pastries, seria algo tipo uma confeitaria, mas onde predominam os folhados, como croissants, folhados doces e salgados, brioches, etc. Enfim, tem um desses lugares aqui a uma quadra da minha casa, um dos que gosto mais, e principalmente aos domingos. Gosto de chegar lá cedo para pegar um pastry fresquinho - espero que não se importem com o inglês. Eu falo assim, genericamente, porque cada domingo escolho um diferente. É um lugar relativamente conhecido no bairro e sempre está cheio. Hoje peguei um Kouign Amann, desculpe o francês.

Ao chegar ali, havia umas oito ou nove pessoas na fila. Você pode imaginar como é: primeiro a gente vai até o caixa, pede e paga o café e o que vai comer; depois eles levam à mesa ou ao balcão em que você estiver.

Enquanto estava ali, me veio à memória a famosa frase-brincadeira de brasileiro: “Quem é ele na fila do pão?” Pois eu estava na fila do pão. E pensei: quem são essas pessoas à minha frente na fila do pão?

Duas meninas conversando: imaginei que podiam estar na faculdade, eram colegas de uma vida toda, terminaram o segundo grau no ano passado, cada uma foi aceita numa universidade diferente, e agora estão se revendo para contar as novidades, ou elas mantém esse ritual de virem tomar café aqui todos os domingos, como faziam suas mães, talvez sejam irmãs, ou só estão passando o fim de semana por aqui, e esse é simplesmente o café mais próximo do hotel onde estão hospedadas. Um senhor chegou com uma criança, talvez pai e filho. E assim fui criando uma história para cada um naquela fila do pão.

Mas quem eles são, além de irmã, amiga, pai, filho?
De repente, nessa fila pode haver um vice-presidente de uma multinacional. De repente, um motorista que entrega café, como era meu pai, que só parou para pegar um café, antes de dirigir por duas ou três horas de volta para casa, no interior. De repente, há um desempregado desesperado que vai usar um pouco do dinheiro que lhe sobra para fazer a vontade de uma filha que está de aniversário e ama o croissant de chocolate daqui. De repente são pessoas simples ou sofisticadas, que pararam para tomar um café no domingo porque não há mais nada a fazer, ou porque, como eu, gostam de comer um pastry num domingo de manhã.

Lembrei-me de muitos anos atrás, falo de janeiro de 1990, logo após eu ter me formado na Escola da Aeronáutica  em Guaratinguetá e ter ido trabalhar em Porto Alegre. Eu estava lá havia cerca de um mês. Num fim de semana, caminhando na Rua da Praia, passou por mim o brigadeiro do ar que fora comandante da escola em Guaratinguetá, enquanto eu era aluno. Ele andava no meio da multidão, vestindo tênis e calça jeans, não lembro exatamente a roupa, mas lembro que era normal, comum, passando despercebido no meio das pessoas, apenas mais um.

Lembro, sim, claramente, da sensação de espanto que tive: aquele homem que até um mês atrás eu só via em ocasiões de desfiles e cerimônias especiais, com sua chegada sendo anunciada por seu toque de corneta, sempre se apresentando com muita autoridade, uma figura que inspirava medo e respeito, mais medo do que respeito, cuja casa evitávamos até passar em frente, de repente estava ali, na Rua da Praia, andando sozinho, no meio de tantos.

Para quem não sabe, a Rua da Praia é uma das ruas mais movimentadas de Porto Alegre. Uma rua calçada, com milhares de pessoas, ainda mais num domingo, como hoje, como aquele. Não vou dizer que é como a 25 de Março, mas quase; talvez seja a versão porto-alegrense da 25 de Março, ou o mais próximo disso, se me permitem. E lá estava Vossa Excelência, o brigadeiro do ar ninguém, pois hoje sequer lembro de seu nome, só lembro do medo que sentia de alguém que agora via assim, uma pessoa normal no meio da multidão. Naquela “fila do pão”, ele era só mais um. Não seria atendido antes de ninguém que estivesse ali caminhando. De repente o próprio corneteiro estava na frente dele.

Assim volto para a fila e me pergunto: será que tinha algum brigadeiro do ar ali, naquela fila, algum general de 4 estrelas todo-poderoso?

Penso nsses tantos rótulos que damos, nesses medos que sentimos de pessoas ditas “importantes”. Mas são importantes até quando? Até o fim do expediente? Até sexta-feira? Enquanto tiverem esse emprego? Enquanto estiverem nessa posição? Que importância e que poder são esses na fila do pão?

Mas, como você sabe, é domingo. Estou aqui de novo, na sacada do meu prédio. Hoje o dia está quente. Nesse pouco tempo em que estou escrevendo já começo até a suar, então vou para dentro. Isso é uma surpresa boa. Outubro em Chicago, nove da manhã, e esse calor.

Não olhei a previsão, mas certamente vai esfriar nos próximos dias. Não há como manter esse calor em outubro em Chicago. Não se surpreenda se na semana que vem eu vier aqui dizer que está nevando.

Estamos em Chicago: a cidade que venta, a cidade que muda. A cidade que agora começou a ser atacada pelo ICE, como chamam o serviço de imigração daqui.

Sim, a cidade está sendo atacada pelo ICE, por esses indivíduos que sequestram pessoas supostamente ilegais. Digo "sequestram", porque é o que fazem, pois não há ordem de prisão, não há processo, não há sequer uma clara legalidade para o que fazem. Digo “supostamente” porque eles não fazem ideia se as pessoas que estão sendo levadas realmente são imigrantes ilegais, sequer se são imigrantes. Se você tem aparência ou suspeito de ser um imigrante ilegal, você pode ser levado sem perguntas, sem chance de falar.

Não estou exagerando. Imagens e vídeos mostrando as ações dessas pessoas não faltam. Vendo uma dessas cenas, me lembrei de vários filmes da Segunda Guerra: a polícia ou o exército alemão pegando pessoas na rua e jogando-as em caminhões, por suspeita de serem judeus, levando-os para os campos de concentração.

Pois bem, isso está se tornando comum aqui em Chicago. Comum nas ruas dos Estados Unidos. Pessoas mascaradas. Mães sendo levadas, crianças separadas. Pessoas porque têm “suspeita razoável”, seja lá o que isso quer dizer, de que estejam ilegalmente no país. Sim, isso é o que a lei diz, e que não é necessário mandato judicial. Se tem cara de judeu, se se veste como judeu, se alguém disse que é judeu, então, é judeu, então é um imigrante ilegal e pode simplesmente ser levada. Para onde? Não se sabe ao certo. Quando alguém vai parar para ouvi-la? Não se sabe ao certo. E de repente descobrem que era turista, ou até cidadão americano, ou que era um judeu, não um imigrante ilegal, e pode ser tarde demais para o dano feito.

Confesso um certo receio de falar na rua. Meu sotaque não tem como disfarçar.

E, de novo, é Chicago. A cidade segue. Para quem não vê, para quem não presta atençao, para quem acredita que está acima de qualquer suspeita, nada acontece. Daqui, olho a ponte sobre o rio Chicago, onde ontem vi agentes do ICE passando. As pessoas abriram caminho: alguns vaiavam, outros xingavam, havia cartazes de protesto, incluindo Free Palestine. As autoridades mascaradas atravessavam a ponte, num sábado, no centro de Chicago, turismo bombando, e eles ostentando a estupidez, mas cobrindo a cara de vergonha.

E volto à fila do pão. Será que há algum agente do ICE nessa fila? Eles andam mascarados, são cidadãos do bem, representantes da família tradicional cristã, então fica difícil de reconhecê-los no meio de gente decente.

Não vou cair na paranoia de evitar pedir meu café para que não percebam meu sotaque. Mas, sim, pode haver um deles ali. E eu não sei quem são.

Às vezes me dou conta: seré que sei quem sou?

E seguimos neste domingo. Quente como está, na época do ano em que estamos, a vontade é: vamos aproveitar, pode ser o último domingo quente do ano.

Sim, vamos aproveitar, porque pode ser o último. Pode ser o último domingo de calor. Pode ser o último domingo. Pode ser a última fila do pão em que eu entro. Pode ser o último agente do ICE que vejo sem máscara, comprando um croissant para levar para sua filha, filha dele com sua esposa mexicana, cujos pais entraram ilegalmente no país.

E sigo agradecido por vocês estarem aqui me lendo.

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