sábado, 31 de dezembro de 2011

Uma Carta para 2011

2011, quando você chegou, você me trouxe uma amiga com câncer (a palavra proibida) e eu fiquei muito chateado contigo. Depois de algumas semanas ou meses ela estava curada. Muito obrigado, 2011. Mais tarde, a história se repetiu com outra amiga, de novo uma amiga linda e jovem com esta terrível doença. Por que 2011? Que merda! Eu fiquei completamente emputecido contigo. Mas de novo a história se repetiu e ela está se curando. Muito obrigado mesmo, 2011. Você também trouxe problemas de saúde para outras pessoas próximas e queridas, mas você resolveu todos os problemas. Muito obrigado.

Quando você chegou, 2011, eu disse que iria me formar neste ano, mas você disse não, vai com calma, vai devagar, e foi bom assim. Tenho certeza de que está sendo muito melhor dessa forma do que se tivesse sido como tinha planejado. Eu também planejei uma viagem que seria o máximo e você de novo disse não, não agora. Mas você me deu outra, muito melhor. De novo você me deixou chateado e depois agradecido.

Você fez eu me mudar, de endereço e por dentro, você me trouxe problemas, dificuldades, mas também me trouxe prêmios e recompensas, muito mais do que eu poderia sonhar. Você criou distância entre mim e meus melhores amigos, você os enviou para longe, criou algumas confusões e mal-entendidos entre nós e eu confesso eu odiei quando isso aconteceu, 2011. Algumas dessas distâncias – físicas ou não – estão sendo difíceis de aceitar; não consigo entender por que você fez isso. Mas você também me trouxe novos e bons amigos. Você me trouxe amigos que parecem anjos pra mim, pela presença deles, pelo carinho deles, pelo sorriso que me dão num simples “Oi, Alexandre, como você está?”

Eu aprendi com você, 2011, que amor às vezes significa apenas respeitar o silêncio e a distância. Amor às vezes significa chorar durante uma noite inteira após ver uma pessoa amada morrendo, e então, ficar inexplicavelmente feliz por ver que está tudo em ordem novamente, que a beleza está de volta, brilhando no palco. Mas a lição que você me ensinou com mais veemência, 2011, foi que amor às vezes significa aceitação, e que isso não é fácil. Você me ensinou que às vezes o melhor a se fazer, a forma mais amável de amar é aceitar os fatos como eles são; aceitar o não que é dito pelas circunstâncias ou pela pessoa amada. Afinal de contas, até o amor romântico tem diversas formas de se mostrar.

Sabe, meu amigo 2011, me sinto mal quando vejo pessoas reclamando de você. Eles dizem que você foi difícil, que foi mau, que demorou para acabar. Você é só uma criança, 2011, só um curto período de tempo no espaço, um quase nada, que passou muito rápido. Eu acho que as pessoas precisam de distância (até em tempo) para poderem entender melhor o que aconteceu. Talvez em breve elas vão entender que você não foi tão duro assim, nem tão mau. Você foi apenas um tempo curto e justo que passou e que todos puderam fazer o que quiseram.

Eu ainda não conheço 2012, mas como você me trouxe, eu acredito que ela será ótimo como você foi. Talvez, como tudo que você me trouxe, ele me deixará chateado às vezes, mas ele me fará feliz também. E, você sabe, eu sempre acredito que não importa quão grande possa ser a tristeza, a alegria que virá será sempre maior.

Você está partindo em poucas horas, 2011. Você está me deixando quase sem plano algum para 2012, praticamente uma folha em branco esperando para receber novas palavras. Mas eu não estou ansioso; estou esperançoso que, como um amigo seu, 2012 me tratará com carinho. Espero que as palavras que 2012 vá escrever em minha folha branca sejam doces e bonitas, apesar das possíveis dificuldades. Você sabe, toda poesia para ser bela precisa falar sobre algo mais do que apenas amor e paz; são necessários alguns espinhos no caule da rosa.

Espero que 2012 escreva um lindo poema na minha vida. Espero que 2012 escreva um lindo poema no coração de cada um.

Seu amigo, Alexandre

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não Sou Muito

Sou de um preto desbotado que é quase branco. Às vezes, sabe, sinto até vergonha.  Meu sangue é meio descolorido também, e até minha urina não é de um amarelo muito forte. Minha fala é normalmente mansa, calma e educada. Típica fala politicamente correta que não incomoda, não irrita, não te deixa desconcertado, e que também, creio, não ajuda muito.

Um amigo, ou melhor, um conhecido me disse que eu sou o “não sou muito.” Não sou muito feio, não sou muito bonito, também não sou muito chato, nem muito legal. Não sou muito alto, não sou muito baixo, não sou muito gordo e, obviamente, nem magro sou muito.

Fico na minha, mas também não fico muito na minha para não chamar a atenção. Se  a gente fica muito quieto, muito sozinho, chama mais a atenção do que se a gente fala muito e está sempre presente. Então não sou muito quieto, não sou muito falador, mas também não sou muito sozinho, nem sou muito distante.

Acho que tudo é culpa desse preto desbotado que me vestiram ao nascer, ou desse sangue de vermelho fraco e transparente com que encheram minhas veias. Não sei. O que sei é que não incomodo e que também não me incomodo facilmente. E isso sim me incomoda. Normalmente acho que tudo está bom do jeito em que está. E pior, estou sendo sincero, eu acho mesmo.

Não incomodo nem quando durmo. Não ronco, não me mexo muito, não levanto durante a noite para ir ao banheiro e quase não peido. E se alguém perto de mim fizer barulho, ou decidir ficar com a luz acesa, não tem problema, durmo do mesmo jeito.

Não tenho manias e sou facilmente adaptável à novas circunstâncias. Nem ficar doente eu fico, assim não dou trabalho. Ou seja, sou um saco.

Pudera eu ter nascido com alguma cor definida, seja qual fosse, ou com um cabelo diferente, pois sim, meu cabelo é normal. Quisera eu roncar, mijar amarelo forte e deixar umas gotas pra fora, pois sim, mijo certinho, e no lugar. Tivera eu agora ai te incomodando com minhas manias e colocando defeito na janta que você tivesse preparado pra mim – afinal faço minha própria janta – assim pelo menos, creio, não passaria desapercebido.

O que sei é que sou assim, desse preto desbotado, com esse sangue meio descolorido e que este meu jeito “não sou muito” já está me irritando, mas não muito.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Hoje de Manhã Eu Me Cortei

Sabe, hoje de manhã eu me cortei. Estava fazendo faxina e arrumando a casa e, num descuido, num instante de idiotice momentânea, consegui enfiar a ponta de uma faca na minha mão, bem ali entre os dedos polegar e o indicador da minha mão esquerda.

Sabe, doeu muito, muito mesmo. Na hora, sabe como é, cheguei até a pensar que poderia perder o movimento de um dos dedos, outra idiotice, mas é assim, pelo menos comigo é sempre assim, sempre exagero um pouco mais na hora da dor. Também ali, naquele momento, a vontade que me deu foi de jogar tudo pra cima, de parar com o que estava fazendo e que se dane. Mas, poxa, se eu parasse, quem iria continuar? A casa estava uma bagunça, estava suja e eu era a única pessoa ali. Era eu ou eu. Se eu não fizesse, ninguém faria por mim.

Sabe, parei um pouco e fiquei segurando o corte com a mão direita, apertando para ajudar a estancar o sangue. Demorou, mas estancou. Latejou muito, mas também passou. Ainda sentindo um pouco de dor, retomei as atividades, organizei e limpei a casa.

Sabe, agora estou aqui com a mão ainda doendo um pouco, mas nada demais. Pode ser que fique uma cicatriz ali onde está o corte, mas pode ser que nem fique, não sei, só o tempo dirá.

Sabe, estava pensando que a vida é assim mesmo. Sem querer, num momento desavisado, a gente se corta. Na hora parece que o mundo vai acabar, a gente não quer fazer mais nada, mas, poxa, se a gente não fizer, quem vai fazer? Ninguém fará por nós o que é nossa obrigação, ninguém fará por nós o que viemos para fazer, ninguém viverá por nós a nossa vida. O jeito é esperar um pouco até parar de sangrar e retomar. Logo logo a dor passa, pode ficar uma cicatriz, pode nem ficar, só o tempo dirá.

Sabe, hoje de manhã eu me cortei, mas já sarou.

domingo, 31 de maio de 2009

Que posso fazer se minha vida tem mais primaveras que outonos?

Não fui eu quem escolheu, mas foi assim que cresci e é assim que vivo.

Acostumei-me a ver mais flores nascerem do que morrerem, espirrar mais devido ao pólen do que por resfriado, usar mais camisetas do que casacos. E prefiro tênis a sapatos. Nada demais, um simples All Star, calça jeans e camiseta branca já me deixam confortável, com sensação de estar adequadamente vestido para viver minha vida.

Também vivi mais verões que invernos, mas isto não é o importante, é apenas conseqüência. Não que eu não goste de verões, assim como nada tenho contra outonos e invernos, mas apenas vejo-o como conseqüência da primavera, como o marco do apogeu da mesma. Três meses comemorando-a, celebrando a vida que ela nos trouxe.

Por mais fria que seja, primavera é sempre primavera. Por mais diferente que seja, é onde me sinto bem, me sinto em casa, em qualquer lugar do mundo.

Diferente da lua, que prefiro quando cheia, nas estações prefiro a crescente, a que leva ao sol. Na lua, o quarto crescente me dá uma sensação de angústia, de ansiedade. Fico com a sensação de algo incompleto, definitivamente não gosto. Primavera, pra mim, só a do sol, a da lua não me conforta. Nela prefiro as outras estações, as outras fases, até a nova, como hoje, me deixa melhor.

Mas, de tudo de belo que pode existir na primavera, do que mais gosto é de lembrar como tudo estava quando ela começou e ver como ela age, como ela muda tudo.

É bom lembrar que, mais do que bela, ela é prenúncio de nova vida. No meio do inverno, tudo frio e morto, nada melhor do que lembrar da primavera, lembrar que ela virá, com toda certeza, e terminará com o gelo, com a sequidão e nova vida nascerá.

E assim é, e assim é que se tem alegria, mesmo no inverno, mesmo em tempos sem sol, pois sabemos que a primavera virá, que a lua será cheia. E assim a vivemos, cada dia com toda energia possível, pois também sabemos que novo outono virá, e a lua minguará.

Que posso fazer se minha vida tem mais primaveras que outonos? Vivê-las.


(English version: http://wordsbytheworld.blogspot.com/2009/05/what-can-i-do-if-my-life-has-more.html)

sexta-feira, 29 de maio de 2009

Dia cinza em Minneapolis.

Olha só,

Apesar de estarmos quase no verão, hoje a temperatura não passou dos 15ºC. Às vezes garoava.

Em Uptown, um senhor me pediu dinheiro. Foi o primeiro, hoje.

Já me pediram dinheiro em vários lugares, de várias formas. Diferente do Brasil, só na aparência. Aqui se vestem melhor, mas pedem dinheiro.

Dois estudantes, pelo menos pareciam ser, em pleno campus da Universidade de Minnesota me pediram dinheiro na semana passada. Achei que fosse brincadeira, mas não era.

Pouco muda no mundo daqui em relação ao que já conhecia. Negros e imigrantes de países pobres, latinos e asiáticos, fazem o serviço pesado. Isto pode explicar a simpatia.

Dentro da dor e da delícia de se ser o que é, de se estar onde se está, passei o dia lembrando de uma amiga que faz aniversário hoje.

A estas horas devem estar tomando uma cerveja. Devem estar no Mercatto. Nem o cheiro de cigarro me incomodaria. Sim, já devem ter fumado muito. Devem estar bêbadas e falando alto. E mais um cigarro. E mais uma cerveja.

Aqui a cerveja é boa, acho que melhor que a do Brasil, mas tenho preferido tomar vinho branco. Sozinho, com o frio, só me apetece chá, por enquanto.

Prometem que o calor chegará, mas ainda tenho dúvidas.

No bar, devem estar criando problema para colocar uma cadeira a mais na mesa, que já deve estar lotada, mas as meninas do Mercatto dão um jeito.

Brindo com meu chá, querendo, por alguns momentos, trocar a primavera de Minneapolis pelo outono de Porto Alegre. Aqui as ruas estão lindas, coloridas pelas inúmeras árvores e plantas. Várias cores que se alteram diariamente. Difícil de imaginar, só mesmo vendo.

Mas tenho saudades da rua da República, com seu verde único. Algo me diz que o verde da Redenção não é mais belo, mas é mais profundo que o verde daqui.

Dentro da dor e da delícia de se ser o que é, de se estar onde se está, comecei um novo módulo hoje. Novos professores, novos colegas, antigos professores e colegas também. Como a vida, sempre com novidade, sempre com um pouco do mesmo, para nos acostumarmos, para o aconchego da alma.

Ontem joguei futebol, depois de anos. Muito bom. Definitivamente, tenho me sentido mais livre, mais solto e mais novo, como há tempos. Muita energia, muita vida, muita alegria, mais do que imaginava, mais do que queria, mais do que sonhava.

Mais alguém deve ter chegado, mais uma cerveja. O tom de voz deve estar muito alto. Só para me maltratar, sei que já devem ter recitado Vinícius. Aqui não tem Vinicius, nem Drummond, nem Quintana, mas ainda encontrarei outros.

Faz frio, daqueles que só amigos esquentam.

Não entendo muita gente, não entendo muitas ações e reações de muitas pessoas. Não sei se devo entender, não sei se preciso entender. Sei de mim, do que eu gosto, do que me faz bem.

Prometo pra mim mesmo não pensar nas reações que meus carinhos e amores podem gerar. Isto não cabe a mim. Se não me entendem, ou se me recebem diferente do que esperava, não tenho nada a fazer. Só me preocupo em não me endurecer.

Provavelmente com a próxima cerveja virá mais um maço, ou dois. Sei que o que falam não vem da bebedeira, vem de dentro, a cerveja só ajudar a pintar o quadro, a mostrar a beleza.

Nosso parabéns é diferente, não é repetitivo. Outro dia falo disso, não nesta data querida.

Foi um privilégio!

(English version: http://wordsbytheworld.blogspot.com/2009/05/grey-day-in-minneapolis.html)

segunda-feira, 23 de março de 2009

Só Uma Explicação

Para te escrever o verso mais bonito, percorri todos os caminhos por que passei, juntei todas as palavras que encontrei perdidas, mas só formaram tristeza.
Andei pelos caminhos que tu passaste, por todos e juntei as que deixaste. Algumas penduradas em varal, ainda pingando o amor que sobraram sobre elas sem ser usado, desperdiçado, secando ao sol. Só desilusão. 

Não havia nem no meu nem no teu caminho palavras que pudesse usar. Nenhuma das que vi me trouxeram alegria. Nos nossos passados, pouco vi, só desperdício, palavras amáveis plantadas sob pedra, desejos quarando no quintal.

Para te escrever não encontrei palavras. Terei que escrever com as nunca ditas, com as que não usamos ainda, com as que diremos. Nossa poesia nascerá amanhã, ontem não havia.

Hoje só te escrevo esta prosa, quase desculpa, explicação pelo que ainda não existiu, pelo que não vivemos. Amor, só amanhã.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

O Palhaço Nu

O palhaço perdeu o nariz e se sentiu nu.

Estava ali, sozinho, no centro do palco, luzes nele, quando se viu assim: nu, sem o nariz.

Nunca a platéia fora tão grande, nunca tantos olhares se dirigiram para ele. E ele ali, nu, e a platéia e as luzes e o palco enorme à sua volta. E ele, centro da vergonha.

E riam e todos riam e riam muito. E ele não achava graça alguma. Só vergonha e constrangimento. E riam às gargalhadas dele.

Quanto maior seu constrangimento, quando maior sua vergonha, mais riam.

Ele só fazia esconder seu nariz com as mãos, como Adão. E se sentia tão nu, ali no centro, mãos cruzadas sobre o nariz, que se viu trançando as pernas, encolhido: algo além do sexo estava exposto.

Estava ali, totalmente desnudo e, em troca, recebia risos, os risos que ele nunca quisera.

Já sem saber como sair daquela situação, viu uma criança escapar da platéia, correr ao seu encontro e lhe pular nos braços. E foi obrigado a tirar as mãos do rosto, para que a menina não caísse e, assim, lhe pegou no colo.

Ela o olhou bem dentro dos olhos e sorriu:

- Sr. Palhaço, o senhor não precisa ter vergonha. Nós te amamos além do nariz. Não é ele que te faz palhaço.

Ele sorriu, meio desapontado, constrangido, sorriu.

Ela subiu as mãozinhas até seu nariz, para lhe tapar. Suas mãos formaram uma conchinha sobre ele. Bem redondinha.

Depois lhe olhou novamente e sorriu.

Suas mãos eras vermelhas, brilhantes, seus olhos também.

- Palhaço, vai, ria, faça com que riam contigo, da tua arte e nunca mais de ti, da tua vergonha.

E, enquanto falava, ela foi sumindo. Restaram suas mãozinhas vermelhas, restaram seus olhinhos, sempre à sua frente. Sempre que hesitava, os olhinhos da menina anjo estavam ali, sorrindo, incentivando, lembrando que ele devia seguir adiante.

E o palhaço sorriu e riu e gargalhou. E foi tanta alegria, que toda platéia chorou.