Sejamos Óbvios

Sejamos óbvios. Os óbvios não assustam, e, obviamente, não supreendem. Quando você não age de acordo com a obviedade, você deixa as demais pessoas perdidas, sem lhe entender, ou, pior, tentando lhe categorizar dentro de algum padrão óbvio que elas já conhece. Consequentemente, elas não lhe entendem, mesmo que você não queira ser entendido. Como não lhe entendem, elas lhe enquadram – pensei em dizer que elas lhe julga, mas achei que criaria algum óbvio mecanismo de defesa nos óbvios – e assim passam a lhe tratar como se você fosse e/ou estivesse passando por aquela situação óbvia, a qual conduziria obviamente à reação que ela acredita que você obviamente teve. Não, não adianta explicar, os óbvios sabem mais que você e têm toda uma sociedade óbvia para lhes dizer que eles estão certos e você errado, ou negando, ou mesmo mentindo, e acabam assim sabendo mais de você do que você mesmo. Então aprenda com eles, se molde e se obvie. Antes de agir espontaneamente, pare e se pergunte: o que conduziria um óbvio a fazer o que estou fazendo? Não se justifique, não ache explicações, apenas decida entre duas opções óbvias: não aja como havia pensado, ou aceite que todos óbvios saberão o que está passando na sua vida, saberão de suas razões e motivos, mesmo que não seja verdade. Não seja irresponsável de seguir adiante sem esta reflexão anterior, pois poderia causar estrago no entendimento de outros, ou na sua reputação, na sua história, no seu passado, se é que você se preocupa com isso. Sei que você dirá que não se preocupa com isso, mas sei que você se preocupa, pois todos os óbvios se preocupam, o que faz com que todo mundo se preocupe, mesmo que isso não seja verdade.
Está confuso? Acho que não, você deve estar me entendendo e, mais do que isso, sabendo por que estou escrevendo isso, afinal a resposta é óbvia. Um óbvio, como sei que você não é, perde o precioso tempo da leitura, da conversa entre amigos, ou de qualquer outro momento de interação, tentando entender e enquadrar, achar as conclusões, as razões, motivações, tudo que não está ali explícito e que, convenhamos, não é importante, mas necessário para o óbvio. Ao invés de estar prestando atenção no que o amigo lhe diz, o óbvio se perde em pensamentos, tentando entender por que seu amigo está falando aquilo, onde ele quer chegar, que jogo ele está jogando, e assim perde a essência, o que realmente está acontecendo ali na sua frente. Durante a leitura de um texto simples como este, ele se perde pensando no motivo que levou o dito escritor a escrever, pois obviamente o fez por alguma razão, para contar algo, para mandar recado, ou algo do tipo, e o óbvio precisa saber da história inteira. Se ele não sabe, ele cria e você que aceite, pois, a partir daquele momento, passa a ser uma verdade inquestionável.
Você, meu amigo e minha amiga, que não são óbvios, têm uma delicada tarefa à sua frente: serem mais óbvios e mais previsíveis. Quanto mais binárias as pessoas forem, mais fácil de entender, mais fácil de aceitar, rejeitar e resolver. Ache o seu quadrado, aceite-o e fique nele. Não venha dar uma de moderninho às vezes e não seguir todo o perfil óbvio que esperam de um moderninho, você será praticamente um falsário, um mentiroso, mesmo que não o seja. Ou você é esquerda ou direita, e, uma vez que decidiu seu lado, siga o pre-determinado. Você só tem um signo das doze opções, e não venha tentar ser um ariano calminho e paciente, nem um leonino humilde e envergonhado. Não, siga teu manual do início ao fim. Ser eclético não combina com nada. Defina seu estilo, aceite seu personagem, decore seu papel e não improvise, pois você poderá derrubar a peça toda e perder seu papel, para algúem mais óbvio.

Você obviamente sabe por que escrevi isto.

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