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Agosto

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Estou ruminando um texto que li com um que tento escrever há dias. Escrevo, não o acho no tom que gostaria, apago, começo novamente, novamente não o acho indo na direção que gostaria e assim sigo. Hoje ele vai sair de mim do jeito que for, terá o tom que tiver e será da qualidade que você julgar apropriada, não me importa mais. Já se foram cinquenta anos e pouco foi dito, quase nada entendido: é tanto tanto e tanto pouco que nem sei. Sempre fui do tipo que, como diria Zeca Baleiro, passa agosto esperando setembro. Sempre concordei com a velha máxima de que agosto é mês do desgosto e outras máximas óbvias: mês do cachorro louco, mês do azar, e o que mais você puder lembrar ou me ensinar. Porém, no começo de agosto, uma pessoa muito especial compartilhou um texto também especial que me tocou. Pelo que pesquisei, creio que o mesmo seja de autoria de Miryan Lucy de Rezende. No texto, bastante poético, ela conclui que “só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera”. Se me permitem,...

Bonsais

[Primeiro lugar no Prêmio Barueri de Literatura 2016]   Não há como evitar. Toda manhã quando estou caminhando para o trabalho e passo pela esquina da Summit Avenue com a Moore Street, olho para a minha direita, para a próxima esquina. É um movimento quase automático e inconsciente que faço – mas faço – como se estivesse verificando se aquele prédio marrom de três andares ainda está ali. Creio que é como se eu ainda tivesse alguma esperança de ver nossa vida de volta àquele lugar. Entretanto, sei que o tal lugar que quero de volta não é aquele: o lugar que quero de volta não é um espaço físico; o lugar que quero de volta, para viver novamente, é um lugar no passado, num período de tempo que já se foi, mas que ainda não terminou nas minhas memórias e sonhos. Agora, durante os primeiros dias de outubro, quando as árvores das ruas estão mudando de cor, vindo de verde para tons de amarelos, marrons e uma variedade inacreditável de vermelhos, nosso prédio parece ser parte do ambien...

Conselhos para um Bom Suicídio - I

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Você já se suicidou? Ainda não? Que pena. Eu já e recomendo, acredite. No início, quando você começa a cogitar a idéia, dá um certo medo, uma angústia toma conta de seu peito, seu coração dispara, sua pressão sobe e por algumas noites você não consegue dormir direito. Você fica como que tomado por aquela mistura de obsessão com medo e a ansiedade só faz aumentar. Depois vem a fase do conflito interno entre suas verdades absolutas e aquele novo passo à sua frente que vai de encontro a tudo que você sempre acreditou e pregou aos quatro cantos. Vem então a fase da elaboração mental da desculpa que fará você acreditar que você tomou a atitude mais correta e, por que não dizer, a mais corajosa. Sim, coragem, isto é necessário e muito. Muitos dizem que suicídio é um ato de covardia, mas estes nunca se suicidaram. Só quem já se suicidou, como eu, sabe do tanto de coragem que é necessário. Suicídio não é para qualquer um, você pode ter certeza disso. Entre uma angústia e outra, entre uma an...