05 de Julho de 1982

Não sei se posso dizer que já tive um herói na minha vida, provavelmente não. Para mim, sempre soou e soa estranho quando as pessoas falam de seus heróis. Eu nunca tive um. Se bem que, para ser cem por cento honesto, devo confessar que eu posso ter tido um herói, sim, mas só por um curto período de tempo. Se não tenho tanta certeza sobre um possível herói em minha vida, tenho certeza sobre um inimigo. Sim, eu já tive um inimigo. Seu nome era Paolo Rossi e ele fez o pior que um inimigo pode fazer: ele venceu de uma vez por todas meu único possível herói, e sua vitória foi do tipo de vitória final, vitória da guerra, não apenas de uma batalha, vitória sem discussão e nem segunda chance. Meu candidato a herói não teve sequer outra batalha para tentar se redimir, a guerra estava vencida por meu inimigo.

        Lembro muito bem da armadura de meu inimigo em detalhes. Ele vestia calção branco e camiseta azul. Havia o número 20 impresso em branco nas costas de sua camiseta. No seu peito, o distintivo tricolor da seleção nacional italiana de futebol, a azurra, que nunca havia me colocado medo antes.
Também lembro obviamente de meu candidato a herói. Não era uma pessoa; na verdade era uma equipe: a melhor e mais brilhante equipe de futebol que eu já vi em minha vida: a seleção brasileira de futebol da Copa do Mundo de 1982. A seleção canarinho estava jogando um futebol mágico e encantador naquela copa. Até hoje em dia, o time é lendário e disputa com outros campeões mundiais o título de melhor seleção de todos os tempos, mesmo sem nunca ter vencido uma copa. Em minha opinião, de todas as equipes que vi jogar, nunca nenhuma mostrou tanta arte em campo, arte ao jogar futebol de maneira simples, objetiva e bela. Já assisti várias equipes realmente excelentes jogarem e poderia facilmente listar algumas dezenas aqui, mas nenhuma delas pode ser sequer comparada à seleção brasileira de 1982.
Porém, no dia 05 de julho de 1982, em Barcelona, na Espanha, no Estádio Sarrià, este time maravilhoso encontrou seu arquirrival. Até aquela data, a seleção brasileira havia jogado quatro partidas e vencido todas, era o único time com aproveitamento de cem por cento dos pontos disputados. A seleção já havia marcado treze gols e estava encantando o mundo. Do outro lado, a seleção italiana havia apenas empatado os quatro jogos que havia disputado e marcado apenas duas vezes. O tal número 20, meu inimigo como já lhe contei, não havia marcado nenhum gol sequer até aquele dia. Ele e sua seleção estavam apresentando um futebol medíocre, não merecedor de atenção e tinham quase sido desclassificados logo na primeira fase. Aquela seleção italiana não estava honrando a tradição da camisa azurra naquela copa. Ninguém poderia duvidar de que o Brasil venceria facilmente aquele outro jogo, dando outro show de futebol ou uma aula para os amantes do esporte bretão.
Naquela tarde eu estava em casa com meus irmãos esperando pelo início do jogo. Minha mãe, neta de italianos, começou a brincar com a gente dizendo que nós perderíamos para a Squadra Azzurra, como os italianos gostam de chamar sua seleção. Sim, ela disse que nós perderíamos. A seleção brasileira, principalmente durante a copa do mundo, representava a todos. Como o famoso jornalista dissera que a seleção é a pátria de chuteiras, principalmente naquele tempo, principalmente durante uma copa do mundo. Claro que não nos aborrecemos e nem nos importamos com o que minha mãe dizia; ela não entendia nada de futebol mesmo.
O jogo então começou e minha mãe nos serviu uma massa italiana. Viu só, ela estava tentando nos provocar, mas só demos risada, afinal, até mesmo se o jogo terminasse empatado, o Brasil se classificaria e a Itália voltaria para casa; afinal tínhamos mais pontos do que eles. Ninguém poderia acreditar em algum final diferente para aquela partida: o Brasil indo para as semifinais e a Itália voltando para casa provavelmente envergonhada após a péssima campanha que tinha feito e, quem sabe, após uma goleada. Mesmo na TV já falavam sobre o próximo jogo do Brasil, na próxima quinta-feira, contra a Polônia, pelas semifinais e, então, no domingo, a grande final contra França ou Alemanha, que disputariam a outra semifinal.
Porém, como eu dizia, o jogo mal começou, não tínhamos sequer provado direito a massa de minha mãe, quando Paolo Rossi marcou seu primeiro gol. Não era de todo ruim, afinal o jogo tinha apenas começado e tínhamos todo o jogo pela frente para empatarmos e virarmos. Isso já havia na primeira rodada contra a poderosa União Soviética, que era um time muito melhor que a Itália. Assim como esperávamos, dez minutos mais tarde, o Brasil empatou o jogo. Tudo havia voltado ao normal. Entretanto, naquele dia, mesmo jogando muito bem como nos outros jogos, a seleção brasileira não estava marcando gols, como nos outros jogos. Para complicar, num passe de bola descuidado entre jogadores da defensiva brasileira, Paolo Rossi pegou a bola e marcou pela segunda vez. Sim, Paolo Rossi novamente, o mesmo que não havia marcado nenhum gol até aquele dia, acabara de marcar o segundo gol ainda durante o primeiro tempo do jogo – inacreditável. Porém, de novo, sabíamos que tínhamos tempo suficiente para empatar e ainda vencer aquele jogo. Durante todo o restante do primeiro tempo a história se repetia: o Brasil tentava atacar, a Itália apenas se defendia, e não conseguimos marcar nosso segundo gol. O primeiro tempo terminou assim, com a Itália vencendo por 2 a 1, com dois gols dele, Paolo Rossi.
O segundo tempo começou e a tensão na minha casa apenas crescia. Minha mãe às vezes passava pela sala, olhava para a televisão e dizia, “é, não vai ter jeito, só estou vendo camisa azul em campo. Cadê os de amarelinhos?” Como já disse, no começo não ligamos, mas, conforme o tempo passava, começamos a ficar mais e mais nervosos e decidimos não responder mais às provocações, pois parecia que ela estava com a razão.
Aos vinte e dois minutos do segundo tempo o alívio chegou: com um dos mais belos chutes daquela copa, um chute forte, da entrada da área e bem colocado, Falcão empatou para o Brasil novamente. Que alívio. Que golaço. Não estava perfeito, mas era suficiente para nos classificarmos. A Itália não conseguiria marcar outro gol. Nunca na história, até então, uma equipe tinha conseguido marcar três gols contra o Brasil em apenas uma partida. Entretanto, você não deve esquecer o que falei no início: meu inimigo era terrível e impiedoso. Apenas seis minutos mais tarde e o impossível aconteceu: ele marcou pela terceira vez. Pela primeira e única vez na história do futebol mundial, um único jogador marcou três gols contra a seleção brasileira num único jogo.
Sabia que havia mais vinte e três minutos pela frente, mas sabia também de alguma forma que seriam os vinte e três minutos mais rápidos da minha vida. Nossos jogadores fizeram de tudo, mas a bola simplesmente não entrou no gol italiano. O goleiro italiano, Dino Zoff, foi sem dúvidas o melhor comparsa que Paolo Rossi poderia ter. No último minuto, o juiz marcou um escanteio para o Brasil. Júnior cruzou a bola na área e Sócrates cabeceou a bola perfeitamente, para o chão, como se deve fazer, e com força, bem no canto direito do gol, mas Zoff fez um milagre, abafando a bola em cima da linha. O Brasil inteiro gritou gol, mas Zoff calou o grito, antes do som do G sair de nossa garganta. O pior sentimento de que me lembro logo após esse lance foi a sensação, quase certeza, de que, se a bola tivesse entrado e o Brasil empatado novamente, Paolo Rossi marcaria mais um gol.
A partida terminou assim, o Brasil perdeu e deixou a copa do mundo. Paolo Rossi fez história como o pior vilão que a seleção brasileira já enfrentou. Ele era aparentemente tão fraco quanto era Davi na frente de Golias, mas venceu. Assim como o futuro rei de Israel, ele usou três pedras para derrotar o gigante temido por todos: nossa seleção canarinho. Além de matar seu adversário, o mesmo que potencialmente se tornaria meu herói, ele também matou nosso sonho, matou um futebol mágico, acabou com o melhor time de futebol de todos os tempos.
Não me recordo de nenhuma palavra entre eu e meus irmãos após o jogo terminar. Normalmente, você sabe, quando perdemos um jogo culpamos o árbitro, ou encontramos alguma justificativa ou explicação mesmo que ilógica, ou ainda alguma teoria de conspiração para justificar a derrota. Mas naquele dia foi diferente. Estávamos todos derrotados. Havia apenas silêncio e a dura aceitação da vitória do inimigo dentro de nós. Ainda hoje, se fecho meus olhos, lembro-me perfeitamente do sorriso no rosto do “bambino d’oro”, o menino de ouro, como os italianos começaram a chamar Rossi.
Hoje posso ver em sua alegria e em seu sorriso desagradável certa descrença frente ao que ele acabara de fazer. Vejo em seus olhos o prazer de ter sido capaz do impossível e ver seu adversário derrotado de vez. Entretanto, naquele dia, só tive um entendimento sobre aquele sorriso: Rossi estava olhando para mim, através da tela da TV, e rindo da minha dor.

Naquele dia aprendi que às vezes a força e a objetividade podem vencer a arte e a beleza. Para os amantes do futebol, nosso time é inesquecível; para a história, Paolo Rossi foi um herói e a Itália a campeã mundial de 1982; para mim, só sei que meu inimigo matou meu possível herói indiscutivelmente e me ensinou que às vezes a única possibilidade que nos resta é aceitar nossa derrota em silêncio.

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