Chicago, domingo, 26 de outubro de 2025
Coloque para tocar Jorge Drexler – Polvo de Estrellas.
O outono bateu forte aqui esta semana. Vários dias, quando caminho com os cachorros às seis da manhã, a sensação térmica está por volta dos zero graus Celsius, e com vento.
Hoje, domingo, o dia está lindo. Apesar do vento frio, a temperatura deve estar por volta de dez graus, o céu está completamente azul, e é gostoso caminhar assim pela rua.
Acabei de chegar em casa de uma caminhada com os cachorros. É quase meio-dia. Resolvi dividir com vocês algumas coisas que tenho pensado, como tenho feito ultimamente.
Que isso não se torne um hábito.
Nesta semana, tive que estudar um pouco O mal-estar na civilização, de Freud. Em algum momento, ele fala de um pacto civilizatório que, simplificando uma longa história, seria o pacto sob o qual vivemos, que, a grosso modo, diz:eu não te agrido e você não me agride.
De certa forma, controlamos nossos instintos em troca dos outros controlarem os seus. E assim seguramos a raiva, a vontade de agressão e também o amor, a afeição.
Eu não demonstro muito o que sinto, e você também não demonstra muito. Porque, de repente, se eu demonstrar tudo o que sinto, pode não ser agradável. Então eu seguro o meu ódio, seguro minha agressão, seguro também o meu amor e minha vontade de afeto. Em troca, você faz o mesmo. E seguimos como seres civilizados.
Fico pensando quantos outros pactos não fazemos implicitamente. Quantas outras trocas não sustentam a vida em comum. Quantas vezes os relacionamentos que vivemos não são trocas, pactos não ditos.
Eu fico com você, aguento sua chatice, porque algum benefício eu tenho. Tenho a sua beleza, a sua inteligência, a sua simpatia, ou o seu dinheiro, o que normalmente é o mais explícito.
Lembro agora de um fato engraçado, digamos assim, que ouvi há bons anos. Um conhecido meu, muito bem financeiramente, contou que uma vez a mãe chamou ele e o irmão, quando estavam por volta dos seus dezoito anos, e lhe perguntou durante um café da manhã:
— Vocês não se dão conta de que todas essas meninas que saem com vocês, só saem com vocês por causa do dinheiro que vocês têm, que elas só têm interesse em vocês?
Eles responderam:
— Mas a senhora não vê que a gente também só sai com elas por interesse?
Claro que normalmente não é explícito. Ninguém chega e fala: “Eu tenho tanto na minha conta, você tem tanto de beleza, vamos fazer uma troca.”
Eu tenho inteligência, eu tenho simpatia, eu tenho qualquer coisa que seja importante para você: a mesma crença, a religião, o corpo atlético, o que quer que seja importante numa relação para você.
E aqui não falo só de relações amorosas, mas também de amizades e tantas outras. Empresas gostam de falar: "aqui somos uma família". Não, nunca são. Se bem que, de certa forma, podemos até chegar a uma conclusão, discutível, de que até mesmo nas famílias há interesses não ditos.
Mas pensar um mundo assim fica estranho, não fica? Pensar que eu só não agrido porque não quero ser agredido. Que só não exponho o que sinto porque não quero que os outros exponham também. Que estou num relacionamento porque ganho alguma coisa e, em troca, dou outra.
Fica meio frio, eu acho.
Mas não deixa de ser verdadeiro, certo?
O que você acha?
E, depois de tudo isso dito, que diferença faz tudo isso, se somos do pó e ao pó voltaremos? O que nós somos nesse meio do caminho? O que resta entre o pó e o pó?
Tenho achado interessante esse momento em que sento aqui, olho a cidade relativamente de cima, e me ponho a escrever. As pessoas parecendo tão pequenas passando lá embaixo. Carros que, dependendo da distância, mal consigo identificar. Pode ser carro de milhares, pode ser carro simples. É só um quadrado de ferro se movendo com algumas pessoas dentro.
Daqui vejo o rio chicago e uma de suas pontes. Muitas pessoas viajam para chegar aqui, para ver esse rio, para ver esses lugares que estão bem à minha frente. Economizam para chegar aqui. E aí? Viu, tá visto? O que se procura ao ver ao vivo o que pode ser facilmente visto pela internet?
Que importância tem isso? Daqui, as pessoas que atravessam a ponte são minúsculas. Mal identifico se são homens ou mulheres, se têm dinheiro no banco ou não, se são bonitas ou feias, gordas, magras, modelos a serem seguidos, ou estão procurando um caminho para seguir. Imagino que aquelas pessoas minúsculas carreguem problemas gigantescos na cabeça delas.
E daqui, olhando, parecem tão insignificantes. Seus problemas também me parecem pequenos, fáceis de resolver e de sumir. Quase nenhum deles existirá daqui um ano; muito menos daqui dez, e certamente nenhum desses problemas gigantescos existirá daqui cinquenta anos.
Nós somos insignificantes, é isso? Somos apenas pó, entre o do qual viemos e para o qual iremos?
Não sei ao certo, realmente não sei. Só sei que estou feliz e me sinto privilegiado por você estar me lendo.

Comentários