Bonsais
[Primeiro lugar no Prêmio Barueri de Literatura 2016]
Não há como evitar. Toda manhã quando estou caminhando
para o trabalho e passo pela esquina da Summit Avenue com a Moore Street, olho
para a minha direita, para a próxima esquina. É um movimento quase automático e
inconsciente que faço – mas faço – como se estivesse verificando se aquele
prédio marrom de três andares ainda está ali. Creio que é como se eu ainda
tivesse alguma esperança de ver nossa vida de volta àquele lugar. Entretanto,
sei que o tal lugar que quero de volta não é aquele: o lugar que quero de volta
não é um espaço físico; o lugar que quero de volta, para viver novamente, é um
lugar no passado, num período de tempo que já se foi, mas que ainda não
terminou nas minhas memórias e sonhos.
Agora, durante os primeiros dias de outubro, quando as
árvores das ruas estão mudando de cor, vindo de verde para tons de amarelos, marrons
e uma variedade inacreditável de vermelhos, nosso prédio parece ser parte do
ambiente, com a mesma cor das folhas da árvore de bordo vermelho que fica bem à
sua frente. Agora, durantes os primeiros dias de outubro, quando as folhas
estão caindo e deixando as árvores como um esqueleto seco e frio, vejo aquele
nosso lugar como uma folha que caiu de mim, seca e sem vida. Agora, durante os
primeiros dias de outubro, lembro-me de quando me dei conta de que o outono é
minha estação favorita, por suas cores infinitas, pela quantidade de vida que
sentia dentro de nosso lar. Agora, durante os primeiros dias de outubro,
lembro-me de que outono não significa morte ou fim, mas apenas uma fase, apenas
um tempo que irá passar, e passará rápido, espero. Agora, durante os primeiros
dias de outubro, vejo nosso prédio como se estivesse caindo entre as demais
folhas avermelhadas e espero pela próxima primavera.
Estávamos na primeira semana de setembro, há dois
anos, quando me mudei para aquele apartamento. Era no terceiro andar daquele
prédio branco na esquina da Portland com a Moore. Era o lugar perfeito para
mim, perto de meu trabalho e próximo ao Rio Mississippi, numa vizinhança calma
e segura, cheia de árvores e pássaros, além dos esquilos e coelhos de costume:
um lugar especial. O apartamento tinha dois dormitórios, ambos com janelas
voltadas para o sul. Na primeira noite em que dormi lá acordei com o sol vindo
direto no meu rosto. Foi a primeira vez que isso me aconteceu e eu amei aquela
sensação do sol me tocando o rosto para me acordar. Tinha dormido no meu velho
sofá, minha única mobilha naquele primeiro dia, e o sol me alcançou ali para me
acordar, me dar boas vindas cheio de energia e me despertar para meu primeiro
dia naquele apartamento.
Mais tarde fui até a IKEA para comprar uma cama. Escolhi uma que parecia ser feita de
madeira pesada, embora não o fosse. Também comprei um colchão de molas
ensacadas – pois me disseram que eram os melhores – dois travesseiros de penas
de ganso e um edredom tamanho King, totalmente branco. Já estava quase chegando
à fila do caixa para ir embora, quando vi alguns bonsais. Algo que não sei
explicar agora, quase como uma voz que vinha daquelas pequenas árvores, me
chamou. Parei em frente daquela prateleira e fiquei assim olhando para cada um
deles, como se os analisasse, como se procurasse pela voz que me chamou, e
assim fiquei sentindo a presença deles comigo. Toquei de leve seus pequenos
troncos, seus galhos, e senti a vida e a energia deles: os senti
verdadeiramente vivos, respirando ali comigo no mesmo ritmo. Senti como se
aqueles pequenos seres estivessem transbordando energia, quem sabe algum tipo
de energia que estivesse ali há tempos, estagnada, em seus corpos minúsculos.
Eu não tinha consciência de que naquele momento eu estava escolhendo além dos meus
primeiros bonsais: naquele momento acabei decidindo sobre a vida que viveria
pelos próximos dezesseis meses. Após mais de trinta minutos, escolhi três
bonsais. Esqueci meu carrinho com meus travesseiros e meu edredom; esqueci a
cama que tinha reservado e tudo o mais. Comprei uma estante com quatro
prateleiras e todo o utensílio necessário para manter minhas pequenas em boas
condições.
No dia seguinte, caminhei algumas quadras, até a A. Johnson & Sons Florist na Grand
Avenue e comprei mais três bonsais, após passar mais de uma hora sentindo cada
um deles, na mão, na pele de meus dedos deslizando sobre os mesmos, e dividindo
energia com aqueles pequenos. Não, na verdade decidi comprar outros: não tinha
chegado em casa ainda e voltei, comprei mais quatro, para somar sete, o que
seria um número melhor, o número perfeito, e que somaria dez, com os outros
três que nos esperavam em casa. Bem, você me entenderá, havia quatro prateleiras
em casa; três bonsais em cada uma ficariam muito melhor, ficariam mais bem distribuídos
e deixaria o ambiente mais harmônico. Voltei à loja assim que cheguei ao
apartamento e comprei mais dois. Na manhã seguinte, o sol que me acordou
tocando meu rosto tinha um contorno especial e lindo de árvores, de folhas: um
contorno de vida.
Naquele final de semana, logo no sábado pela manhã,
comprei mais duas estantes. Um colega do trabalho me falou sobre um bom lugar
para comprar bonsais em Bayport, a uns quarenta minutos de casa. Fui até lá e
comprei mais algumas daquelas adoráveis árvores e acabei ficando por lá durante
toda tarde, conversando e aprendendo mais sobre eles. No domingo pela manhã
caminhei pela Selby Ave e parei em algumas lojas de antiguidades. Numa delas
encontrei uma mesa que era exatamente o que eu precisava para colocar no meio
do quarto dos bonsais. Eu precisava desse espaço para poder cuidar deles. Nessa
mesma loja havia duas estantes antigas que eu tive que comprar: elas eram
verdadeiramente lindas, bem escuras, de madeira de castanheira, com alguns
desenhos de flores e galhos esculpidos nas laterais. Não resisti e comprei as
duas. Você não vai acreditar, mas elas estavam expostas com dois bonsais, um
sobre cada uma delas. Estavam lá apenas como decoração, não para serem
vendidos, mas convenci o dono da loja e os comprei também. Você deve concordar
comigo de que isso não poderia ser uma simples coincidência, havia uma
sincronicidade acontecendo e que eu não poderia negar ou fingir que não
percebia.
O dono da loja me disse que aqueles bonsais eram de
cerejeira. Eu mal acreditei quando ele me disse que aquelas pequenas produziam
frutas. Como você pode ver, não pude resistir e as comprei, sem dúvida alguma.
Retornei à loja de Bayport para confirmar a história
sobre os bonsais frutíferos. Era verdade, eles existiam e eu não sabia. Então
comprei alguns deles; vinte, para ser exato. Mr. Price me falou sobre outras
lojas que vendiam vários outros tipos de plantas. Ele me falou muito de
orquídeas, disse que a tal lady-slipper
pode viver próxima a bonsais e que essa presença é beneficial para os dois.
Sério mesmo? Orquídeas são nojentas, você não concorda? São muito sexuais para
o meu gosto, com aqueles longos caules e delicadas flores, normalmente
avermelhadas, rosadas e brancas. É quase grotesco aquele longo membro masculino
deflorando – literalmente – a inocente flor tão indefesa. Eu lhe disse que não
gostava de flores, que eu gostava era de bonsais. E que os bonsais gostavam de
mim também.
Quando cheguei de volta ao nosso apartamento decidi
que um dos quartos, o mais próximo à esquina seria o quarto dos bonsais verdes,
com aqueles que não produziam frutos e todo mobiliado com estantes e mesa
antigas, ou aparentemente antigas. O outro quarto seria o quarto dos bonsais
frutíferos, com aqueles que davam frutos, obviamente, e com mobiliário moderno,
ou contemporâneo, conforme acontecesse. Eu já estava acostumado a dormir no meu
velho sofá, o que já era mais do que suficiente para mim. Quando o gelado
inverno começou, ambos os quartos estavam cheios de plantas, assim como minha
sala, para a qual não reservei nenhum tipo especial de bonsai. A sala era o
lugar da diversidade, era onde eles se misturavam como são encontrados na
natureza. Logo após a primeira nevasca de novembro, me dei conta de que eu
tinha que ser mais cuidadoso em relação às condições climáticas e à temperatura
dentro do apartamento. Comprei então um umidificador, um ar condicionado
portátil e sensores de umidade e temperatura, para deixar sempre o ambiente em
condições ideias para minhas plantas. Assim ficou mais fácil enfrentarmos o
inverno. Aqueles foram sem sombra de dúvidas o Natal e o Ano Novo mais felizes
de minha vida.
Quando começou o verão nosso apartamento estava
completamente cheio de bonsais: havia seis estantes no quarto verde, cinco no
quarto frutífero, todas repletas de minhas pequeninas árvores, além, é claro,
de uma mesa central em cada um dos quartos e outros mobiliários, quase sempre
cobertos por outros bonsais. Olhando de fora do nosso prédio verde era possível
se ver minha pequena floresta se formando e crescendo. Sim, ouvi alguns de meus
vizinhos se referindo ao nosso apartamento como “a florestinha”. Várias vezes
fui surpreendido por pássaros voando dentro do apartamento. Isso começou a acontecer
quase diariamente: era só abrir as janelas e logo alguns pássaros voavam para
dentro. Com o tempo comecei a ser acordado por alguns pássaros cantando às
minhas janelas, pedindo para que eu as abrisse. Confesso que de alguma maneira
eu me sentia orgulhoso daquela floresta. Sabia que não tinha nenhuma influência
direta minha, eu apenas permiti que a natureza se manifestasse. E eu estava
orgulhoso de ter tanta vida ao meu redor. Nunca mais me senti sozinho, pois me
tornei plural, me tornei nós. Parei de falar sobre meu apartamento, minha vida,
meus problemas e todos os outros meus. Sem perceber, comecei a falar tudo em
plural, tudo se tornou nosso: nosso apartamento, nossas vidas, nossas
dificuldades em viver nesse ambiente tão diferente para nós.
Como você sabe, plantas precisam de terra, de espaço,
e bonsais não são diferentes. Deixar uma planta vivendo num vaso pequeno é como
deixar um pássaro numa gaiola, ou um humano como você numa cela de cadeia. Sim,
eu sei que plantas não andam nem voam, mas elas têm raízes e suas raízes
precisam de espaço para crescer e se manifestar.
Uma noite enquanto conversava com eles, pude ouvir
suas reclamações; pude ouvir seus gemidos de dor, e reconheci naquele gemido o
mesmo gemido que eu gemia quando minha mãe me colocava sapatos apertados. Não
tive dúvidas: decidi criar um pequeno canteiro na minha sala. Lá eu poderia
cuidar melhor de minhas filhinhas e elas teriam mais espaços e terra para
crescerem. Esta foi a melhor ideia que poderia ter tido. Você precisava ver
como os bonsais amaram aquele lugar: era perfeito. Decidi então fazer outros
canteiros. Empurrei meu sofá para a parede que separava da cozinha. Assim eu
ficava próximo de tudo que precisava: cozinha, banheira e porta de entrada. Era
tudo que eu realmente precisava para viver. No restante do espaço construí
quatro canteiros que iam de parede a parede. Primeiro tirei o carpete, depois
coloquei uma camada de pedras, outra camada de pedregulhos, e então terra.
Comprei vários sacos de terra boa, daquela escura, com bastante adubo misturado.
Numa manhã de sábado, enquanto tomava um brunch no Grandview Grill, vi um rapaz
na televisão falando sobre a importância das minhocas para melhor arejarem a
terra. Segui o conselho do rapaz e comprei também algumas minhocas, que assim
que chegaram em casa, mergulharam felizes nos meus canteiros.
Esta ideia funcionou tão bem que na primeira semana de
outubro, um ano atrás, fiz o mesmo nos dois quartos. Coloquei as vinte estantes
que tínhamos em volta, contras todas as paredes do apartamento e nelas coloquei
os bonsais menores, ou aqueles que precisavam de mais cuidado. Nos quartos,
construí dois canteiros grandes, só deixando espaço para as estantes ao redor.
Como você pode imaginar, nosso apartamento era, agora sim, uma verdadeira
floresta, com bonsais e algumas outras plantas tomando conta de tudo. Bem no
meio da sala plantei o mais belo de todos: um bonsai cerejeira anão de vinte
anos de idade. Você precisava ver quando ele ficava coberto de flores, era
inacreditavelmente lindo e perfumado. Minhas plantas me deixavam feliz e
orgulhoso como nunca. Eu simplesmente amava cuidar delas.
A reação dos vizinhos foi que começou a mudar. A
maioria deles nos evitava. Até quando os via nos espiando pela janela, eles
disfarçavam e fingiam que não tinham nos visto. Eu sabia que só poderiam estar
com inveja, pois não tinham tamanha natureza em seus apartamentos. Você
precisava ver como minhas plantas começaram a crescer rápido e cada vez mais
saudáveis, quando lhes dei todo o espaço que podia. Agora sim éramos uma
família, uma unidade, um pedaço único da natureza ali no meio de St Paul.
Foi quando nos demos conta de que outono era nossa
estação favorita. Nossa casa estava cheia de cores e com um perfume único no
ar. Aves frequentemente vinham dividir nosso espaço e espalhar sua beleza e
música.
Só cometi um erro. Sim, fui muito imprudente. Deveria
ter pedido conselhos de algum especialista antes de fazer o que fiz. Quando plantei os bonsais naqueles canteiros
que criei, alguns deles começaram a crescer, porque, é claro, agora eles tinham
espaço para fazê-lo. Plantei alguns deles junto às paredes e eles cresceram até
alcançarem a altura da janela e seguiram além. Em breve havia uma segunda
parede, toda natural, feita de bonsais, dentro de meu apartamento.
Tudo seguiu assim muito bem até dezembro. O dia 11 de
dezembro do ano passado foi o pior dia de minha vida. Era um sábado, tinha
nevado forte desde a meia noite anterior e seguiu nevando o dia inteiro. Estava
um frio absurdo com um vento congelante. Nossas janelas estavam fechadas e
estávamos aquecidos e em paz dentro de nosso apartamento, de nossa estufa
natural. Porém, você sabe, as outras pessoas não cuidam de suas casas como nós
cuidamos. Eles não mantém suas casas controladas com temperatura e umidade
ideais. Antes de se preocupar conosco, deveriam manter suas casas secas.
Bateram na minha porta às dezoito horas. Era a síndica
e mais três vizinhas malucas com quem eu nunca tinha sequer conversado antes.
Minha vizinha do andar debaixo, Ms. Maiers, disse que havia algumas plantas
brotando no seu teto, e minhas outras duas vizinhas, tanto a do apartamento da
esquerda como a do apartamento da direita, estavam praticamente berrando
dizendo que havia raízes brotando por debaixo de suas paredes, além de um
incontável número de minhocas andando por seus apartamentos. Tentei explicar
que eu não tinha culpa alguma se elas não sabiam como cuidar de suas casas para
mantê-las como queriam, mas não me deram ouvidos. Além do mais, eu não entendi
qual era o problema. Elas deveriam estar felizes e agradecidas por terem
algumas plantas e um pouco da natureza invadindo suas casas, você não acha?
Eu as convidei para entrarem no meu apartamento e
fiquei confuso com a histeria delas. A síndica, Ms. Fritz, uma senhora tamanho
G e do tipo sedentária tampou o nariz e ousou dizer que o lugar estava fedendo,
como se houvesse algo apodrecendo lá dentro. Por favor, não havia nada
apodrecendo, era apenas o cheiro do adubo, o cheiro da natureza, como ela é: um
cheiro maravilhoso de vida. Não tenho culpa se ela nunca foi sequer à fazenda
alguma durante toda sua gorda vida, nem sequer deve ter pisado na terra.
Certamente foi criada sentada num sofá dentro do mesmo apartamento por anos.
Não era minha culpa se o pouco de natureza que ela conhecia era através da
National Geographic, a qual tem cheiro de papel impresso. Ela deveria
aproveitar a oportunidade que eu lhe dava e ser agradecida por eu ter feito de
seu prédio um lugar mais saudável para se viver.
Ms. Maiers estava surtando sem razão alguma. Qual era
o problema em ter algumas plantas no teto? Inclusive ofereci ajuda para cuidar
das plantas e tentei lhe mostrar o quanto ela estaria economizando por não ter
que pagar pelos bonsais que poderiam nascer dentro de seu apartamento, mas ela
simplesmente não me ouvia. Acho que a neve deixa as pessoas meio malucas, só
pode ser. Elas ficam trancadas dentro de casa o dia inteiro sem poder sair nem
por um minuto sequer, ai elas começam a ver coisas, a criar problemas onde não
há razão de ser. Eu estava ainda argumentando com minhas outras duas vizinhas,
quando a gorda da Ms. Fritz voltou com dois policias. Você sabe, este tipo de
gente não se preocupa com a natureza. Eles apenas querem seguir a lei, mas não
há lei alguma que trate de bonsais, que eu saiba ou que tenha ouvido falar.
Enfim e ao final, me expulsaram do apartamento: eu e
minhas plantas. Os policias me levaram para a delegacia e eu acabei ficando na
cadeia de lá por quase três semanas, pois não tinha como pagar para sair. Não
pude sequer ver ou saber o que fizeram com minhas árvores tão amadas e
desprotegidas. Nunca me disseram se as mataram ou se pelo menos as deixaram
viver em algum outro lugar. Sei que finalmente consegui dinheiro para pagar a
fiança e ainda um depósito de garantia para a imobiliária, sei lá por que razão.
Só sei que finalmente, na tarde do dia 31 de dezembro, sai da cadeia. Lá sim eu
conheci o que significa fedor, o que significa estar longe de seu lar, de sua
natureza: o que é viver dentro de um vaso, sem espaço para crescer suas raízes
e seus galhos.
Nestes últimos dias tenho me lembrado daqueles meses
quando vivemos juntos, dividindo o mesmo espaço. Só tenho boas lembranças, só
dos dias de alegria; mal me lembro dos dias que passei preso pagando por algo
injusto: uma punição absurda naquela cadeia, sem ter feito nada errado. Eu
posso me lembrar claramente da textura das folhas e das pétalas de minhas
plantas, seus cheiros, perfumes, e do sabor de seus vegetais e frutos. Posso me
lembrar de como era bom ficar calmo lendo um livro, bebendo ou comendo ali
sentando naquele solo e naquela grama dentro de nosso apartamento. Lembro-me
bem do sabor daquele lugar na minha boca e salivo tais memórias.
Agora, durante os primeiros dias de outubro, pisando
sobre estas folhas amarelas ressecadas na calçada, não tenho certeza se sinto
falta daquele tempo ou se me sinto feliz por tê-lo vivido. Agora, durante os
primeiros dias de outubro, quando as árvores estão mudando de cor, troco de cor
constantemente, me sinto triste e me sinto alegre. Agora, durante os primeiros
dias de outubro, vejo uma folha seca próxima a meu sapato, pego-a, despedaço-a
devagarinho em minha mão, ouço o barulho dela se quebrando, sinto seu perfume
em meus dedos e saboreio o ciclo da vida. Agora, durante os primeiros dias de
outubro, vejo nosso prédio marrom e espero por um novo apartamento branco, quem
sabe na próxima primavera, quem sabe mais tarde, quem sabe ainda antes disso,
onde viverei intensamente de novo.
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Karla Rezende