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Bonsais

[Primeiro lugar no Prêmio Barueri de Literatura 2016]   Não há como evitar. Toda manhã quando estou caminhando para o trabalho e passo pela esquina da Summit Avenue com a Moore Street, olho para a minha direita, para a próxima esquina. É um movimento quase automático e inconsciente que faço – mas faço – como se estivesse verificando se aquele prédio marrom de três andares ainda está ali. Creio que é como se eu ainda tivesse alguma esperança de ver nossa vida de volta àquele lugar. Entretanto, sei que o tal lugar que quero de volta não é aquele: o lugar que quero de volta não é um espaço físico; o lugar que quero de volta, para viver novamente, é um lugar no passado, num período de tempo que já se foi, mas que ainda não terminou nas minhas memórias e sonhos. Agora, durante os primeiros dias de outubro, quando as árvores das ruas estão mudando de cor, vindo de verde para tons de amarelos, marrons e uma variedade inacreditável de vermelhos, nosso prédio parece ser parte do ambien...

Noite de São João

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Para os que ainda estão distraídos, hoje é dia de São João, melhor do que isso, hoje é noite de São João. Para nós, no hemisfério sul, a noite mais longa do ano. Para os do norte, a noite mais curta - sei que na verdade, geograficamente falando não o é, pois o solstício ocorreu no dia 21, mas tanto faz. Os antigos costumavam dizer isso, e vamos manter pela poética envolvida. Muita simbologia, muitas crenças e mitos, conforme a religião e a cultura, são comemorados nesse dia e de forma muito parecida. Vamos ver alguns, assim meio por cima mesmo: Já foi comemorado como dia da deusa Juno, esposa de Júpiter, a rainha dos deuses. Era praticamente a Maria da mitologia romana, inclusive com vários nomes, como Juno Lucina, Juno Natalis, Juno Matronalis, etc (qualquer semelhança com as várias Nossas Senhoras não deverá ser mera coincidência). Daí o mês se chamar junho, uma homenagem a ela. E, mesmo antes de Cristo, alguns povos já comemoravam as festas ‘junônias’. Para os cristãos, pr...

A Vela

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Houve um tempo em que acreditavam, alguns, que a vela era milagreira. Que era a vela e não o santo, o orixá, o deus, ou fosse lá a entidade que fosse, que atendia ao pedido. Todo o poder estava na vela. Na vela, em si, havia graça, beleza e poder. Poder do fogo que queima e destrói com sua leveza. Acreditavam que, enquanto a vela queimava, queimava junto o estado atual, queimava junto o indesejado, a doença, a desgraça, o mal, o velho, e ficava só o novo, a mudança, o milagre pronto e exposto para quem havia pedido. O mal virava cinzas e o novo voava e se expandia com o fogo, como a fumaça que se espalha e se mistura ao ar, até se tornar imperceptível.   Naquela época, havia respeito pela crença de cada um, afinal não reconheciam nenhum poder especial nelas. Como numa árvore, onde cada flor, cada fruto e cada galho tem em si a árvore e  é a  própria  árvore , mas o tronco é o que liga todos, também havia, naquele tempo, várias seitas e religiões, mas era a vela o c...

Dirigindo na Neve

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Dirigir na neve, acredite, é um desafio. Principalmente se, como eu, você foi criado num país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza. Assim como quase tudo nesta vida, com o tempo você aprende um pouco, se acostuma um pouco e o desafio parece menor, mas ele ainda existe e persiste. Este, creio, seja o maior desafio sobre dirigir na neve: o desafio sempre muda. Depois de algumas frustrações, atrasos, e vontade de fazer como um cidadão de Dakota do Norte fez e usar um lancha-chamas para derreter toda essa neve, me dei conta que dirigir na neve tem muito a ver com nossa vida, com como lidamos com os problemas e desafios que sempre nos aparecem e que, assim como os da neve, são sempre diferentes. Quando acreditamos que já sabemos tudo, que já passamos por tudo, lá vem um dia sem neve, mas com vento tão forte, que sopra a neve acumulada fora da estrada para dentro da pista e, de surpresa, você tem que dirigir assim, com um vento branco e cheio de neve que lhe atinge de lado...

Sejamos Óbvios

Sejamos óbvios. Os óbvios não assustam, e, obviamente, não supreendem. Quando você não age de acordo com a obviedade, você deixa as demais pessoas perdidas, sem lhe entender, ou, pior, tentando lhe categorizar dentro de algum padrão óbvio que elas já conhece. Consequentemente, elas não lhe entendem, mesmo que você não queira ser entendido. Como não lhe entendem, elas lhe enquadram – pensei em dizer que elas lhe julga, mas achei que criaria algum óbvio mecanismo de defesa nos óbvios – e assim passam a lhe tratar como se você fosse e/ou estivesse passando por aquela situação óbvia, a qual conduziria obviamente à reação que ela acredita que você obviamente teve. Não, não adianta explicar, os óbvios sabem mais que você e têm toda uma sociedade óbvia para lhes dizer que eles estão certos e você errado, ou negando, ou mesmo mentindo, e acabam assim sabendo mais de você do que você mesmo. Então aprenda com eles, se molde e se obvie. Antes de agir espontaneamente, pare e se pergunte: o que co...

É Necessário Silêncio

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Há um certo silêncio necessário, sim há e nem sei bem por que. Num primeiro momento, diria que é um silêncio para escutar, mas acho que vai além. Um silêncio para escutar não é silêncio por definição. Seria um silêncio ansioso à espera de nova informação; à espera, quem sabe, da próxima oportunidade para voltar a falar – ou escrever.  Também não poderia ser um silêncio à espera de inspiração, pois seria mais ansioso ainda, e, embora aparentemente o fosse, não seria silêncio em absoluto. Seria um silêncio investigador, observador, um silêncio em nada silencioso, um silêncio só do corpo pra fora. Esse certo silêncio necessário a que me refiro vai além de tudo isso. Ele também não vem do fato de não se ter o que falar, pois se tem; não é da falta de inspiração, pois há muita; nem da falta de liberdade ou espaço, pois também não se pode reclamar disso. Não há também nada de egoísmo nesse silêncio, nada de auto-proteção, nem a ousadia de tentar fazer falta, pois quando esse silê...

As Folhas que Caem

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Quando as folhas caem de uma árvore, o que aconteceria se a árvore ficasse triste?  O que aconteceria se, de alguma forma, a árvore conseguisse impedir aquelas folhas secas e já sem vida de se ir, de cairem e apodrecerem no chão, gerando nutrientes para ela mesma se tornar ainda mais forte?  Imagino que ela não conseguiria, mas, se conseguisse, se fosse bem sucessida na sua tarefa de impeder que suas folhas velhas caíssem, por lembrar saudosamente de quando eram novas, lindas e verdinhas, o que aconteceria?  Ela ficaria provavelmente com aquelas folhas velhas e sem vida, depósito de passado, apodrecendo nos seus galhos, fazendo-a apodrecer junto.  Porém, a árvore sábia, deixa com que as folhas se vão. Assim, ela se prepara para receber novas folhas e flores, que estão ali escondidinhas em algum lugar dentro dela mesmo, sem ela se dar conta, morrendo de vontade de nascer.