É Necessário Silêncio

Há um certo silêncio necessário, sim há e nem sei bem por que. Num primeiro momento, diria que é um silêncio para escutar, mas acho que vai além. Um silêncio para escutar não é silêncio por definição. Seria um silêncio ansioso à espera de nova informação; à espera, quem sabe, da próxima oportunidade para voltar a falar – ou escrever.  Também não poderia ser um silêncio à espera de inspiração, pois seria mais ansioso ainda, e, embora aparentemente o fosse, não seria silêncio em absoluto. Seria um silêncio investigador, observador, um silêncio em nada silencioso, um silêncio só do corpo pra fora.

Esse certo silêncio necessário a que me refiro vai além de tudo isso. Ele também não vem do fato de não se ter o que falar, pois se tem; não é da falta de inspiração, pois há muita; nem da falta de liberdade ou espaço, pois também não se pode reclamar disso. Não há também nada de egoísmo nesse silêncio, nada de auto-proteção, nem a ousadia de tentar fazer falta, pois quando esse silêncio chega de verdade, não se faz falta alguma.

É um silêncio que inicia no cansaço, quem sabe, que se origina quando se tem o que se dizer, sim, mas se pensa que não é necessário ou que não é o momento. É como cair no sono. Ainda temos muito o que fazer, o mundo não vai parar, os problemas não terminarão, suas contas ainda precisarão ser pagas e seu amor ainda lhe espera, sabe-se lá aonde, mas você simplesmente adormece por cansaço, por necessidade; porque, por alguma razão, você e seu corpo sabem que é hora de dormir, e você simplesmente se ausenta, se suicida por algumas horas, sem nem ter sequer absoluta certeza se acordará outra vez. Você simplesmente silencia e dorme, nem que seja na marra. E o faz sem anunciar, sem preparar os outros para sua ausência, você simplesmente dorme e o faz profundamente, por horas.

Ousaria dizer que é o silêncio da meditação sem pensamentos, da meditação que ri de Descartes e lhe mostra que não é necessário pensar para existir, que se existe por si só, sem pensamento, sem som, sem palavra e sem ação. Só se existe. Explicar faz muito barulho e às vezes cansa. Pior, às vezes se passa por idiota.

É necessário esse certo silêncio que não se confunde com apatia, que não cria saudades, e que deixa uma certa paz de sono à sua volta. É necessário um silêncio sem porquês, sem ego, sem ser o desejo de falar controlado, sem ser por necessidade, quem sabe. É necessário um silêncio voluntário que vem de dentro de si, quando você menos espera, sem se dar conta, como quando você dorme no meio de um filme que você gostaria de assistir até o final, mas você simplesmente dorme e sua companhia cuidadosamente apaga a luz, desliga a TV, lhe cobre com um edredon e lhe deixa assim, em paz, até amanhã de manhã. Em silêncio.

Comentários

Anônimo disse…
Adorei seu artigo! Muito bem escrito.
Parabéns.
Lunna disse…
Eu entendo perfeitamente. A pausa na fala não necessariamente é a pausa do pensamento. Na verdade fechar a boca é abrir a mente.

Beijos

http://manuellamontesanto.blogspot.com.br

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