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Uma Carta para 2011

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2011, quando você chegou, você me trouxe uma amiga com câncer (a palavra proibida) e eu fiquei muito chateado contigo. Depois de algumas semanas ou meses ela estava curada. Muito obrigado, 2011. Mais tarde, a história se repetiu com outra amiga, de novo uma amiga linda e jovem com esta terrível doença. Por que 2011? Que merda! Eu fiquei completamente emputecido contigo. Mas de novo a história se repetiu e ela está se curando. Muito obrigado mesmo, 2011. Você também trouxe problemas de saúde para outras pessoas próximas e queridas, mas você resolveu todos os problemas. Muito obrigado. Quando você chegou, 2011, eu disse que iria me formar neste ano, mas você disse não, vai com calma, vai devagar, e foi bom assim. Tenho certeza de que está sendo muito melhor dessa forma do que se tivesse sido como tinha planejado. Eu também planejei uma viagem que seria o máximo e você de novo disse não, não agora. Mas você me deu outra, muito melhor. De novo você me deixou chateado e depois agradecid...

Sou de um preto desbotado que é quase branco

Sou de um preto desbotado que é quase branco. Às vezes, sabe, sinto até vergonha.  Meu sangue é meio descolorido também, e até minha urina não é de um amarelo muito forte. Minha fala é normalmente mansa, calma e educada. Típica fala socialmente correta que não incomoda, não irrita, não te deixa desconcertado, e que também, creio, não ajuda muito. Um amigo, ou melhor, um conhecido me disse que eu sou o “não sou muito.” Não sou muito feio, não sou muito bonito, também não sou muito chato, nem muito legal. Não sou muito alto, não sou muito baixo, não sou muito gordo e, obviamente, nem magro sou muito. Fico na minha, mas também não fico muito na minha para não chamar a atenção. Se  a gente fica muito quieto, muito sozinho, chama mais a atenção do que se a gente falasse muito e estivesse sempre presente. Então não sou muito quieto, não sou muito falador, mas também não sou muito sozinho, nem sou muito distante. Acho que tudo é culpa desse preto desbotado que me vestiram ao na...

Hoje de Manhã Eu Me Cortei

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Sabe, hoje de manhã eu me cortei. Estava fazendo faxina e arrumando a casa e, num descuido, num instante de idiotice momentânea, consegui enfiar a ponta de uma faca na minha mão, bem ali entre os dedos polegar e o indicador da minha mão esquerda. Sabe, doeu muito, muito mesmo. Na hora, sabe como é, cheguei até a pensar que poderia perder o movimento de um dos dedos, outra idiotice, mas é assim, pelo menos comigo é sempre assim, sempre exagero um pouco mais na hora da dor. Também ali, naquele momento, a vontade que me deu foi de jogar tudo pra cima, de parar com o que estava fazendo e que se dane. Mas, poxa, se eu parasse, quem iria continuar? A casa estava uma bagunça, estava suja e eu era a única pessoa ali. Era eu ou eu. Se eu não fizesse, ninguém faria por mim. Sabe, parei um pouco e fiquei segurando o corte com a mão direita, apertando para ajudar a estancar o sangue. Demorou, mas estancou. Latejou muito, mas também passou. Ainda sentindo um pouco de dor, retomei as ativida...

Que posso fazer se minha vida tem mais primaveras que outonos?

Não fui eu quem escolheu, mas foi assim que cresci e é assim que vivo. Acostumei-me a ver mais flores nascerem do que morrerem, espirrar mais devido ao pólen do que por resfriado, usar mais camisetas do que casacos. E prefiro tênis a sapatos. Nada demais, um simples All Star, calça jeans e camiseta branca já me deixam confortável, com sensação de estar adequadamente vestido para viver minha vida. Também vivi mais verões que invernos, mas isto não é o importante, é apenas conseqüência. Não que eu não goste de verões, assim como nada tenho contra outonos e invernos, mas apenas vejo-o como conseqüência da primavera, como o marco do apogeu da mesma. Três meses comemorando-a, celebrando a vida que ela nos trouxe. Por mais fria que seja, primavera é sempre primavera. Por mais diferente que seja, é onde me sinto bem, me sinto em casa, em qualquer lugar do mundo. Diferente da lua, que prefiro quando cheia, nas estações prefiro a crescente, a que leva ao sol. Na lua, o quarto crescente me dá um...

Dia cinza em Minneapolis.

Apesar de estarmos quase no verão, hoje a temperatura não passou dos 15ºC. Às vezes garoava. Em Uptown, um senhor me pediu dinheiro. Foi o primeiro, hoje. Já me pediram dinheiro em vários lugares, de várias formas. Diferente do Brasil, só na aparência. Aqui se vestem melhor, mas pedem dinheiro. Dois estudantes, pelo menos pareciam ser, em pleno campus da Universidade de Minnesota me pediram dinheiro na semana passada. Achei que fosse brincadeira, mas não era. Pouco muda no mundo daqui em relação ao que já conhecia. Negros e imigrantes de países pobres, latinos e asiáticos, fazem o serviço pesado. Isto pode explicar a simpatia. Dentro da dor e da delícia de se ser o que é, de se estar onde se está, passei o dia lembrando de uma amiga que faz aniversário hoje. A estas horas devem estar tomando uma cerveja. Devem estar no Mercatto. O cheiro de cigarro seria perfume para mim. Sim, já devem ter fumado muito. Devem estar bêbadas e falando alto. E mais um cigarro. E mais uma ...

Só Uma Explicação

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Para te escrever o verso mais bonito, percorri todos os caminhos por que passei, juntei todas as palavras que encontrei perdidas, mas só formaram tristeza. Andei pelos caminhos que tu passaste, por todos e juntei as palavras que deixaste. Algumas penduradas em varal, ainda pingando o amor que sobraram sobre elas sem ser usado, desperdiçado, secando ao sol. Só desilusão.  Não havia nem no meu nem no teu caminho palavras que eu pudesse usar. Nenhuma das que vi me trouxeram alegria. Nos nossos passados, pouco vi, só desperdício, palavras amáveis plantadas sob pedra, desejos quarando no quintal. moscas andando sobre elas. Para te escrever não encontrei palavras em nossos passados. Terei que escrever com as nunca ditas, com as que ainda não usamos, com as que ainda diremos. Nossa poesia nascerá amanhã, ontem não havia. Hoje só te escrevo esta prosa, quase desculpa, explicação pelo que ainda não existiu, pelo que não vivemos. Amor, só amanhã.

O Palhaço Nu

O palhaço perdeu o nariz e se sentiu nu. Estava ali, sozinho, no centro do palco, luzes nele, quando se viu assim: nu, sem o nariz. Nunca a platéia fora tão grande, nunca tantos olhares se dirigiram para ele. E ele ali, nu, e a platéia e as luzes e o palco enorme à sua volta. E ele, centro da vergonha. E riam e todos riam e riam muito. E ele não achava graça alguma. Só vergonha e constrangimento. E riam às gargalhadas dele. Quanto maior seu constrangimento, quando maior sua vergonha, mais riam. Ele só fazia esconder seu nariz com as mãos, como Adão. E se sentia tão nu, ali no centro, mãos cruzadas sobre o nariz, que se viu trançando as pernas, encolhido: algo além do sexo estava exposto. Estava ali, totalmente desnudo e, em troca, recebia risos, os risos que ele nunca quisera. Já sem saber como sair daquela situação, viu uma criança escapar da platéia, correr ao seu encontro e lhe pular nos braços. E foi obrigado a tirar as mãos do rosto, para que a menina não caísse e, assim, lhe pego...