quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Não Sou Muito

Sou de um preto desbotado que é quase branco. Às vezes, sabe, sinto até vergonha.  Meu sangue é meio descolorido também, e até minha urina não é de um amarelo muito forte. Minha fala é normalmente mansa, calma e educada. Típica fala politicamente correta que não incomoda, não irrita, não te deixa desconcertado, e que também, creio, não ajuda muito.

Um amigo, ou melhor, um conhecido me disse que eu sou o “não sou muito.” Não sou muito feio, não sou muito bonito, também não sou muito chato, nem muito legal. Não sou muito alto, não sou muito baixo, não sou muito gordo e, obviamente, nem magro sou muito.

Fico na minha, mas também não fico muito na minha para não chamar a atenção. Se  a gente fica muito quieto, muito sozinho, chama mais a atenção do que se a gente fala muito e está sempre presente. Então não sou muito quieto, não sou muito falador, mas também não sou muito sozinho, nem sou muito distante.

Acho que tudo é culpa desse preto desbotado que me vestiram ao nascer, ou desse sangue de vermelho fraco e transparente com que encheram minhas veias. Não sei. O que sei é que não incomodo e que também não me incomodo facilmente. E isso sim me incomoda. Normalmente acho que tudo está bom do jeito em que está. E pior, estou sendo sincero, eu acho mesmo.

Não incomodo nem quando durmo. Não ronco, não me mexo muito, não levanto durante a noite para ir ao banheiro e quase não peido. E se alguém perto de mim fizer barulho, ou decidir ficar com a luz acesa, não tem problema, durmo do mesmo jeito.

Não tenho manias e sou facilmente adaptável à novas circunstâncias. Nem ficar doente eu fico, assim não dou trabalho. Ou seja, sou um saco.

Pudera eu ter nascido com alguma cor definida, seja qual fosse, ou com um cabelo diferente, pois sim, meu cabelo é normal. Quisera eu roncar, mijar amarelo forte e deixar umas gotas pra fora, pois sim, mijo certinho, e no lugar. Tivera eu agora ai te incomodando com minhas manias e colocando defeito na janta que você tivesse preparado pra mim – afinal faço minha própria janta – assim pelo menos, creio, não passaria desapercebido.

O que sei é que sou assim, desse preto desbotado, com esse sangue meio descolorido e que este meu jeito “não sou muito” já está me irritando, mas não muito.

2 comentários:

Vivian disse...

Bom dia,Alexandre!!

Lindo texto!!Não é por acaso que és escritor!!Sabe muito bem expressar os pensamentos e sentimentos!
Muito me alegrou sua visita!Li seu livro e gostei muito, e resolvi destacar aquela poesia no blog!(Utopia)
Beijos pra ti!!
Muito sucesso!

Be Lins disse...

Ale, meu lindo:

Você nem sabe o quanto de muito que és:

Você aos meus olhos tem um azul muito bonito que te envolve fazendo-te um homem gentil, qualidade que exige, e MUITO, qualidades somadas e múltiplas,
qualidades que revelam o lado de dentro, coisa que os homens não estão muito familiarizados.

Admiro-te na tua elagância ao dizer as coisas e quero desejar que em 2012, você descubra o teu azul.

Beijo grande,
Be