Agosto
Estou ruminando um texto que li com um que tento escrever há dias. Escrevo, não o acho no tom que gostaria, apago, começo novamente, novamente não o acho indo na direção que gostaria e assim sigo. Hoje ele vai sair de mim do jeito que for, terá o tom que tiver e será da qualidade que você julgar apropriada, não me importa mais. Já se foram cinquenta anos e pouco foi dito, quase nada entendido: é tanto tanto e tanto pouco que nem sei.
Sempre fui do tipo que, como diria Zeca Baleiro, passa agosto esperando setembro. Sempre concordei com a velha máxima de que agosto é mês do desgosto e outras máximas óbvias: mês do cachorro louco, mês do azar, e o que mais você puder lembrar ou me ensinar. Porém, no começo de agosto, uma pessoa muito especial compartilhou um texto também especial que me tocou. Pelo que pesquisei, creio que o mesmo seja de autoria de Miryan Lucy de Rezende. No texto, bastante poético, ela conclui que “só quem vive bem os agostos é merecedor da primavera”. Se me permitem, eu trocaria por merecedor de setembro, pois ele é todo primavera, sendo ou não.
Agosto é o tempo de gestação, da semente na
terra, da preparação para o que virá, para a arrebentação de cores, como ela
diz. Mas, apesar do texto inspirador falar desse assunto e de eu até achar que
falaria disso, decidi que não vou divagar sobre meses, comparar um com outro, ou
nada do tipo. No final das contas, são todos apenas sequencias de dias, sejam
como forem. Meses, anos, semanas, estações, alguém pode argumentar que são
conceitos que criamos, que não existem por si só, assim como o tempo que alguém
diria que não existe: o que existe são relógios, assim como existem os calendários
e outras tantas limitações que colocamos no que é para ser ilimitado e contínuo,
da mesma forma como limitamos a nós mesmos e, se me permitem, nos
descontinuamos.
O assunto então não é agosto, nem setembro,
o assunto é limitação, creio, é sobre conceitos que criamos, acreditamos,
seguimos e que podem mudar de sentido a qualquer momento, como mudou o de
agosto depois que li o tal texto a que me referi. Depois da reflexão provocada
e do novo ponto de vista criado em mim, vivi um agosto com o prazer e o cuidado
que temos com as gestações, sejam elas quais forem. O agosto passou a fazer um
sentido diferente e foi doce e calmo aqui dentro, apesar da turbulência
exterior. Sei que a mudança sentida não foi externa: o agosto seguiu como
sempre, no seu ritmo, com as mesmas energias e qualidades de todos os tantos
agostos desta eternidade, se é que podemos dizer que meses têm qualidades, porém,
dessa vez, o senti leve como nunca o havia sentido.
Da mesma forma, o horário verão, por
exemplo, não muda o tempo, mas os relógios. Os nossos dias, meses, podem mudar,
como acontece quando saímos de nossa vidinha e nos damos conta de outros
calendários e formas de se contar o tempo que existem. E aqui acrescento a
pergunta que me vem óbvia: precisamos contar o tempo e as horas? Precisamos limitá-los,
conceituá-los, e depois nos amarrarmos aos conceitos criados? E daqui me dá
vontade de expandir para tantos outros conceitos e limites que criamos,
definimos e depois nos vemos amarrados aos mesmos, os quais não necessariamente
fazem sentido e não são nem de perto verdades absolutas, mas agimos como se
fossem, como se nada pudesse ser feito para evita-los, quando, na verdade, são
todos apenas criações nossas, nada real de verdade.
Assim como me aconteceu com o agosto, o
convido para que permita que lhe aconteça com a segunda-feira, com o fevereiro,
com os dias treze, com qualquer conceito que lhe impuseram, ou você se impôs,
que lhe traga desprazer, ou que você acredite que traga, mesmo que não seja
real, não importa, o que importa é o que você sente. Mude seu agosto, veja-o de
outra forma. Mude seu horário, seu calendário, mude seu jeito de ver o que não
lhe agrada. É difícil imaginar algo que não seja mutável, uma vez que vivemos
presos em conceitos que nós mesmos criamos, presos em religiões, leis, regras
de sociedade, padrões de conduta e a lista segue enorme aqui, tudo criado por
nós mesmos, queira ou não queira concordar: o fato não muda.
Mude, se permita, veja o mesmo de forma
diferente, para não acabar vendo o diferente como se fosse o mesmo. Questione,
não por questionar ou para irritar o próximo, mas para se provocar, para se tirar
do conforto e, quem sabe, achar um conforto ainda melhor no novo. Perca-se
e não se preocupe em se achar. Viva seu temido e horrível agosto de forma nova
e ele lhe gestará um setembro ainda mais lindo, além de se tornar belo e
prazeroso.
E termino com o Zeca Baleiro para você: se
é assim, quero sim, acho que vim pra te ver.

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