Olha só,
No I Ching, várias vezes encontramos este conselho: “É favorável atravessar a grande água”. Normalmente a interpretação que se faz é que se deve ir em frente, seguir na empreitada, que tudo estará abençoado.
Conforme a tradução e a interpretação pode mudar um pouco, mas sempre remete à coragem, ao desafio, a não se desviar do caminho em que se está, ou algo do tipo. E, principalmente, ao sucesso desta atitude.
Não quero dar nova interpretação, nada disso, mas para mim, com todo respeito, sempre que leio este conselho, o que me vêm à cabeça é como que uma ordem: ‘Pegue tuas trouxas, e te manda! Só pare quando chegar do outro lado do oceano! E lembre-se da mulher de Ló: nada de olhar para trás! Vá!’.
Lembro do Mar Vermelho, lembro da ‘Ponte’ de Lenine, e sempre a ordem é a mesma: atravessar, ‘a ponte é somente pra atravessar’. Pela ponte, com o mar aberto, de avião, navio, tanto faz, mas atravessar, se hesitar.
Pode parecer algo simples, simplista, eu diria, mas não é.
O que mais me toca não é o simples ir, o atravessar, mas o desprendimento dessa ação aparentemente simples. Este partir que falo aqui é como ouço na ordem que citei acima: eu e minhas trouxas, e só. Sem levar mais nada. Não é uma mudança de endereço, onde levamos nossas vidas junto, nossos móveis, nossos costumes, nossas arrumações... não!
A travessia é mais exigente: é sem olhar para trás, é só levando suas roupas, e poucas, só o que couber numa mochila. É deixar tudo onde e como está e ir, e correr o risco de não fazer falta. Sim, este é o perigo, este é o desprendimento. É deixar o seu mundo sem você. E ir, atravessar a grande água.
Foi um privilégio!
segunda-feira, 16 de junho de 2008
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