Chicago, domingo, 28 de setembro de 2025.
Então estou aqui: de novo domingo, de novo na sacada do meu apartamento, na região central de Chicago. Diferente da semana passada, hoje está um dia ensolarado. Inclusive o sol está na minha cara agora enquanto eu escrevo, refletindo na tela. Não está tão confortável como estava no último domingo, está mais quente. Quente para Chicago, pois deve estar 20, 21 graus no máximo. Mas o sol batendo na pele dá uma sensação boa, de estar mais calor do que realmente está.
Já são 10 horas da manhã, então já há movimento, já há barulho na cidade. Mas é domingo, então não se compara ao movimento ou ao barulho de um dia de semana. Nesse tempo em que eu estou aqui, também diferente da semana passada, não passou nenhuma ambulância ainda. O barulho é mais aquele constante, um ruído de carros e de pessoas, a white noise, como se diz por aqui, está mais para gray noise, se essa expressão existisse.
Também diferente da semana passada, estou com meus dois cachorros aqui, sentados ao meu lado. Deitados, curtindo o sol, que provavelmente lhes deve trazer bastante prazer, porque eles se esticam, fecham os olhos e têm expressão de êxtase, quase. Se eu deixar, eles ficam aqui por horas.
Hoje estou pensando numa frase que ouço muito e é muitas vezes usada quando se pergunta "qual é o seu defeito?". Aí, sabe quando as pessoas escolhem um defeito legal para falar, como "Sou muito perfeccionista"? Esse é um desses defeitos que as pessoas falam que têm, como se fosse, na verdade, uma característica positiva, que é o gosto de agradar outras pessoas: "para mim é muito importante agradar os outros, eu não consigo falar não."
Muitas vezes isso é muito bem aceito. Soa como alguém que é generoso, altruísta, como alguém que coloca as outras pessoas em primeiro lugar. Mas não seria isso uma forma de também delegar sua própria vida e sua própria felicidade aos outros? Porque, enquanto esse alguém está se ocupando com os outros, não está se ocupando consigo mesmo. Enquanto está tentando fazer com que os outros gostem dele ou dela, não pára para pensar se gosta de se mesmo, do que é ou está sendo.
Até porque, certamente há uma ideia calada de que os outros não vão gostar de você se você não agradá-los, de que não gostam de você, mas do que você faz pra que eles gostem de você. Isso faz sentido?
Ou será que essa pessoa acha que os outros não vão suportar se ela falar não? Que os outros são tão fracos que se ela falar que não pode ajudar, que não pode fazer, que não vai, o que quer que seja que querem que ela faça ou vá, as outras pessoas não vão dar conta? Será que no fundo essa pessoa generosa e altruísta não se acha importante demais?
Ou será que para ela seria, ou é, tão ruim, tão ofensivo se alguém lhe falasse um não? Será que não lhe falta uma capacidade própria de entender que as pessoas não estão sempre à sua disposição; que as pessoas podem falar não e isso não tem problema, não é nada pessoal, não significa que as pessoas não gostam dela, significa que as pessoas têm outras coisas pra fazer, outros desejos, outras vontades.
Será que ao resistir a falar não para as outras pessoas, no fundo, está se dando o recado: por favor não digam não pra mim porque eu não vou dar conta se você não puder estar sempre à minha disposição?
Como que é para você tomar conta da sua vida? Você falar não quando você não quer, não pode, não está afim? Falar sim só se você pode, se você está afim, se você quer, e não pra agradar quem quer que seja? Porque também se a gente seguir divagando, filosofando, nesse caso específico, quando você fala que você precisa agradar os outros, o que você está me falando é que assim você se agrada, o que também não deixa de ser algo bastante egoísta, ou estou errado?
Mas aí, voltando aqui pra Chicago, isso é algo que se ouve muito sobre as grandes cidades. Fala-se que a cidade grande deixa as pessoas egoístas, que cada um cuida de si. Criado no interior, sempre ouvi que o pessoal de São Paulo, que o trânsito de São Paulo é uma briga, é uma luta, é cada um tentando achar o seu espaço. Será que é isso? E se for, qual que é o problema de cada um procurar o seu espaço, a sua felicidade?
Mas também aí mostra um grande preconceito, que a pessoa que procura ser feliz parece que está errada. No pain, no gain. Isso que eu estou falando está fazendo sentido pra você?
Pensando no domingo, um dia todo pra você, e tem o comum: eu não gosto de domingo porque amanhã é segunda. Tem a ver com não estar disponível para se ouvir hoje?
Eu posso levar isso de não saber dizer não, para não saber aceitar a realidade?
E já que eu estou aqui escrevendo pra vocês, olhando para o trânsito, olhando para esse céu totalmente azul, com esse sol gigante na minha frente, eu não estou embaralhando o assunto?
Ou, se a gente não está falando de uma pessoa que não consegue falar não para os outros, é porque essa pessoa não consegue falar não para si mesmo, não consegue se colocar limites?
Enquanto eu estava escrevendo essa frase, uma pessoa, aqui na esquina que eu estou vendo, buzinou histericamente, daquelas buzinadas em que a pessoa parece colocar todo o peso do corpo na buzina. E eu pensei nisso. Quem lhe dá o direito de soltar esse grito no meio da cidade só porque está incomodada sabe-se com o quê, e, ao mesmo tempo, que mal há nisso? Não sei a resposta. Sinceramente, não sei. Não sei a resposta para quase nenhuma das perguntas e provocações lançadas aqui.
Sei que é domingo, que o dia está lindo, ensolarado (não que ache feio dias nublados e chuvosos), estou aqui fora há cerca de meia hora e nenhuma ambulância ou caminhão dos bombeiros passou ainda. Os cachorros, me contradizendo, foram para dentro: provavelmente seus pelos pretos esquentaram demais e resolveram se refrescar um pouco.
O que segue igual à semana passada é minha gratidão por estar aqui, agora, nesse lugar e nesse momento e por você ter parado para me ler.

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