Chicago, domingo, 21 de setembro de 2025.

Manhã nublada. Chovia até por volta das seis e meia da manhã. Então, olhando aqui da sacada do meu apartamento, vejo o asfalto ainda úmido.

Mas a vida está começando. São oito e meia da manhã agora. Como é domingo, tudo está calmo. Mas Chicago nunca para.

Vejo os garis aproveitando a calma do trânsito de carros e de pessoas para limpar as calçadas. Estão removendo inclusive alguns objetos da rua, resquício da noite de ontem, provavelmente.

Eu moro a uma quadra ou duas de uma estação de corpo de bombeiros. Então, enquanto estou escrevendo, acaba de passar um carro do corpo de bombeiros, seguido por uma ambulância. E essa é a rotina de quem mora aqui onde eu moro, na região central de uma cidade como Chicago. Uma metrópole que não silencia - e não silencia mesmo, em nenhum aspecto. Eu e minhas cidades que não silenciam: minha amada Porto Alegre dos anos 90, minha Minneapolis de 2020 berrando e sagrando para o mundo, e agora Chicago afastando no grito quem finge querer nos proteger. Lembre-se sempre do poeta e declare guerra a quem finge te amar.

Quando eu falo que a cidade está sempre em movimento, não estou exagerando muito. Por exemplo: um supermercado que fica do lado do meu prédio, melhor dizendo, no térreo do prédio onde vivo, funciona de segunda a segunda, das seis da manhã à meia-noite. Nesse menos de um ano em que estou aqui, não vi ele fechado nem um dia sequer. Pode ser que feche no Ano-Novo, pode ser que feche no Dia de Ação de Graças. Mas não ficaria surpreso se continuasse abrindo das seis da manhã à meia-noite mesmo nesses dias.

As linhas de trem do metrô vão até depois das duas da manhã e recomeçam pouco depois das quatro. Não teve uma hora ainda que eu descesse que não houvesse movimento, que não houvesse carros passando, pessoas na calçada.

Mas, voltando ao início: hoje é domingo, 21 de setembro. E é um domingo especial. Porque um domingo é o início de uma semana. Porque dia 21 de setembro é o início, ou quase, de uma nova estação, da minha estação preferida, e não importa o hemisfério. Porque no sul a primavera e no norte o outono são as minhas estações preferidas, não sei se por coincidência ou acaso, elas começam em setembro.

E hoje, além de ser o primeiro dia da semana, quase o primeiro dia de uma nova estação, primeiro dia também, ou quase de novo, de um novo signo no zodíaco, também há uma lua nova linda inciando seu ciclo. Se a estação e o signo do zodíaco só começam amanhã, podemos concordar que hoje é pelo menos, nesse caso, a despedida de um signo e de uma estação. 

Temos uma nova lua que vai começar daqui a algumas horas. E também vai ter um eclipse daqui a pouco! Ou seja: essa lua nova vai começar a partir da escuridão, do nada. E há também o equinócio acontecendo em menos de 24 horas, logo nas primeiras horas de amanhã.

Sabe, eu acho isso muito significativo. Ou melhor: eu sinto isso muito significativo, porque eu não sei se eu sei todos os significados. Eu sei que fala de início, de vários inícios; e também de fim, de vários fins. Lembro da carta A Morte do tarot, que sempre vejo como um renascer. Afinal, da morte da semente depende a vida da árvore, da flor, do fruto; da morte do trigo se faz o pão.

Apesar de ser um dia 21 de setembro que alguém, despreocupadamente, veria como um dia qualquer no meio do ano, eu sinto que é um dia para se comemorar o novo. Como se fosse um ano que começa entre hoje e amanhã. Uma fase nova, uma lua nova. Várias novidades pairando no ar, acontecendo, começando. Sinto que não deveríamos ser indiferentes a tanto.

O que de novo vai começar na minha vida, eu ainda não sei. Mas sinto que haverá. E digo mais: sinto que será plural e que não devo estar distraído esperando que o acaso me proteja. Não sinto que precise de proteção, a propósito.

É estranho o sentimento de que algo está para começar sem você saber o que é. É diferente quando você está esperando começar o ano, você sabe o que vai começar. Quando você está esperando um filho nascer, quando você está esperando algo concreto, ou pelo menos que você sabe o que está para acontecer, pois você pode se preparar.

Meu sentimento é de que algo está para nascer, algo está para acontecer, mas eu não sei o quê. E, não ansioso, sinto uma leveza, uma alegria pelo que quer que seja que será.

E resolvi escrever esse texto hoje porque sinto que não sou o único que está vivendo esse sentimento. De repente, sem saber que hoje é lua nova, sem saber de eclipse, sem nem se dar conta de que o signo de libra está para iniciar, de que passaremos pelo equinócio e de que uma nova estação está começando, a mais linda delas. Mas, lá dentro, está sentindo que tem algo começando, ou a começar; que tem algo terminando em poucas horas e uma vida nova nascendo.

E provavelmente também não sabe o que é, que vida é essa. Ou sabe.

Vejo agora mais uma ambulância se aproximando, mais um grito de sirene passando. A sorte de quem lê é que o barulho de quem escreve não vai para o papel.

É diferente morar no centro de uma cidade grande, depois de ter crescido no interior, depois de ter morado em lugares muito quietos, onde, por exemplo, eu podia deixar meus cachorros para fora do portão sem coleira, porque nem passava carro praticamente.

E agora estou aqui, no coração de uma cidade que pulsa, como se tivesse vida própria, uma ilusão construída por milhões, que existe enquanto acreditarmos. Uma cidade que, apesar de tudo que eu falei, de todos os sentimentos de início, parece não estar nem aí com o que vai começar. Porque ela vai continuar em ação, ignorando qualquer sentimento, qualquer coisa que aconteça na vidas de quem a constrói.

E me sinto privilegiado por estar aqui, agora, nesse lugar e nesse momento e por você ter parado para me ler.

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