Parecemos Estar Vivos

"Eles parecem estar vivos."

Logo no início, a peça The Antiquities, As Antiguidades, provoca a audiência com duas humanoides (não tenho certeza se é assim que se chama, estou por fora do mundo da ficção científica) que visitam um museu de antiguidades para verem como eram os humanos.

Brincam com o fato de que tínhamos museus para entendermos os dinossauros. E agora, estão aqui, no museu, para entender como eram esses tais humanos.

“Olha só, parecem reais”, elas falam encarando a plateia, como se nós fôssemos as peças do museu.

“Como podiam viver sabendo que só viveriam 29.220 noites?

Como era possível fazer tudo o que fizeram, sabendo que a cada noite era um dia a menos?

Cometer barbaridades, atrocidades, sabendo que eram tão efêmeros?”


E, a partir daí, a peça segue.

Vindo do século XIX, passando pelo XX, pelo dia de hoje, e indo até o século XXIII. Passando pela invenção da lâmpada, pelos primeiros computadores, primeiros robôs, internet, inteligência artificial, e indo até o futuro, quando toda a humanidade está extinta e há ainda robôs no planeta.

E nós, humanos, hoje: cada vez menos humanos, cada vez mais artificiais, cada vez mais nos robotizando, cada vez mais nos tornando padronizados, seja na aparência, ou até na forma de pensar.

Seguimos mudando nossos corpos para “harmonizá-lo”, deixá-lo melhor, e, assim, destruindo o que há de mais belo no ser humano: sua singularidade e originalidade.

A espécie mais breve de toda a história da Terra.

A única que provavelmente se extinguirá por si própria.


E então, ao voltar, remontando a história do futuro, passando pelos séculos até o início, a peça chega ao grupo de amigos que contavam histórias assustadoras num acampamento no início do século XIX. 

Uma dessas pessoas é Mary Shelley, que ali começa a criar a história de Victor Frankenstein, que, ao querer recriar a vida, cria um monstro, que acaba levando-o a seu próprio fim.

A peça não fala sobre o futuro, como pode parecer, mas sobre agora, sobre o que temos escolhido deixar para trás em nome de eficiência, progresso, beleza padronizada. É sobre o que talvez estejamos esquecendo: estamos aqui para viver, não para parecemos estar vivos.


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