Vaidades de Vaidades

"diz o pregador, vaidades de vaidades. Tudo é vaidade."

Assim começa o livro de Eclesiastes de Salomão, considerado um sábio. Sim, como não concordar: tudo é vaidade. O próprio fato de escrever isso me parece uma vaidade do mesmo, assim como minha nesse momento, por que não?

E por que falar disso hoje? Porque ontem duas vaidades em especial me chamaram a atenção. E aqui me sinto muito à vontade para falar porque não conheço pessoalmente nenhuma das pessoas e porque uma eu admiro muito por toda sua história e a outra eu desprezo e mal considerado um ser humano, por representar tudo que de mais podre existe na humanidade.

Amanheço o dia com a notícia de que o inquilino do Palácio do Planalto, não contente em condecorar toda a família com medalhas desmerecidas, o que apenas suja  tal honraria, não se conteve e se auto-condecorou. Só consegui achar atos semelhantes promovidos por déspotas e ditadores e somente entre os piores deles. Um exemplo que me veio à memória é do legendário tão quanto sanguinário ditador ugandês Idi Amim Dada, que se autoconcedeu o título de Doutor em Leis, o que certamente fazia justiça a alguém que sempre se preocupou com tais. O imbecil do planalto lhe autoconcedeu a medalha do mérito científico, o que, assim como no exemplo citado, só pode ser um deboche para um semi-analfabeto que confessa que não gosta de livros porque tem "muita coisa escrita", um imoral assassino que ignora todas as provas e razões científicas e estimula seu rebanho a se jogar no precipício de uma cloroquina ou qualquer outro tratamento ineficaz, cujo fabricante que lhe pague propina. 

Mas este texto não é para falar dele, pois este não merece mais do que um parágrafo. Por este caso, que nada me espantou, não me sentaria para escrever nada, pois não há nada de novo aqui. A minha maior surpresa foi a segunda estrondosa notícia de que Fernanda Montenegro agora é uma imortal da Academia Brasileira de Letras. A Academia aceitar não escritores com egos inflamados não é notícia, nem nunca foi e todos conhecem muitos exemplos. A notícia é a maior atriz brasileira que, como disse, não conheço, mas que me parecia ser uma pessoa desprovida de ego, uma vez que o teatro exige generosidade e desapego, se expor a tal cena.

Não, a pessoa não é escolhida à revelia, como você pode estar pensando em me dizer. Ela tem que se candidatar e fazer campanha. 

Claro que olhando para aquela foto dos imortais e vendo tantos outros ali que nunca sequer foram artistas, que nem creio apreciam arte, pelo menos nunca realmente a valorizaram em suas vidas públicas, ela me parece das que mais faz jus a tal lugar. Também ameniza muito o tão criticado Paulo Coelho que, na pior das hipóteses, é o escritor brasileiro mais vendido no mundo, creio que na história da literatura brasileira. Como artista, posso criticar seu estilo, posso não gostar, mas não me acho no direito de avaliar o público que lê, que bate palmas, que frequenta as casas de arte. Não me acho no direito de avaliar qual arte é melhor do que qual, qual arte é mais artística e não me desculpo pela redundância proposital. Enfim, voltemos a maior atriz do teatro, TV e cinema brasileiros. Por que será que ela, com quem sequer tive o privilégio de dividir uma xícara de café, então falo do que vejo na mídia e sei que é superficial, desejou tal título para sua lápide? O que isto poderá acrescentar de útil ao seu currículo já tão imenso, maravilhoso e invejado? Por que ela se candidatou e perseguiu tal exposição ao ridículo?

Acho lindo ver que é mais uma mulher, todas brancas, entre as poucas brilhantes que se tornaram membras de tal academia. Entre elas, todas são escritoras de primeira linha, como Lygia Fagundes Telles, Zélia Gattai e Rachel de Queiroz, a primeira.

Em seu discurso ela disse, "a Academia Brasileira de Letras [...] abrigou e abriga representantes que honram a diversidade da nossa criatividade em várias áreas. Vejo a academia como um espaço de resistência cultural." Então, diferente do que alguns disseram, ela não falou que a academia representa diversidade, pois seria uma mentira, quase um deboche, mas "diversidade de nossa criatividade em várias áreas". Ouvir isso, vendo que ela está sendo admirada por pessoas como Sarney e Marco Maciel, me faz dar um sentido bem diferente à tal criatividade. Ela, porém, fala de "espaço de resistência cultural". A que resistência ela se refere, resistência a mudar a cultura, resistência a ser um espaço de honra das letras, como supostamente o é, resistência a sair de seu próprio umbigo e realmente incluir grandes escritoras e escritores brasileiros entre seus membros? Não sei, mas me pergunto, porque sei que ela é inteligentíssima e sabe escolher as palavras.

Espero que esteja enganado, espero que ela possa, de alguma forma, começar alguma mudança na tal academia que não nos serve de modelo para quase nada, apenas para mostrar pessoas famosas com ego inflados. Afinal, como disse o pregador, "tudo é vaidade."

Beijos!

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