Saudades de uma Porto Alegre na Saudade
Claro, o tal amigo, mineiro, morou em Porto Alegre na mesma época que eu, paulista, e foi por lá que nos conhecemos. Isso foi no início dos anos 2000. Aquela primeira década do século, que, pelo que ouço, ouso dizer que foram os melhores anos de meu Porto amado - para mim, sem dúvidas. Quem viveu lá naqueles loucos doces anos em que uma ideia de possibilidade de uma cidade e uma sociedade diferentes se fazia presente e era vivida no dia a dia, na pele, na cabeça e nos corações de todos os loucos sonhadores, os tais românticos. Tínhamos orçamento participativo, Forum Social Mundial, onde cantávamos que um novo mundo seria possível. Época também em que a vida artística daquela cidade tão longe das capitais fervia com arte de primeira qualidade sendo produzida pelas esquinas, bares, espaços dos mais diversos e também recebíamos visitas ilustres de artistas que nos visitavam para nos brindar com o que faziam e, quem sabe, beber de nossa arte também, como o Lume, o Grupo Galpão, Norma Alejandro, Denise Stoklos, Kagemi com o espetáculo de butô mais lindo que já vi. Como se esquecer the Les Éphémères, de Le Théâtre du Soleil com a maravilhosa Ariane Mnouchkine: uma experiência única para quem se sentou naquele teatro efêmero por horas para assistir arte no melhor significado da palavra em forma de teatro, um prenúncio, quem sabe, das efemeridades por que vivíamos, e encantados, nem nos demos conta. E houve tantas outras maravilhas inesquecíveis que seria injusto citar os que estão vindo à minha memória agora.
Como disse, tenho ouvido que essa Porto Alegre de que falo não existe mais, que acabaram com quase tudo, invadiram a Cidade Baixa e nos pintaram de cinza. Não sei. Não tenho estado lá por mais de uma década. Sei que ele ainda existe, sim, e sempre existirá, aqui dentro de mim e de tantas outras pessoas.
Quem pode tentar se esquecer das bienais de arte, principamente das primeiras, daquela invasão que acontecia; na segunda com a utilização (que se sonhou recuperação) dos armazens do Cais do Porto, na terceira bienal com a cidade dos containers à beira do Guaíba (obrigado, Joel e Dani) - mais uma efemeridade. Mais uma que, efêmera fisicamente, se torna eterna dentro de nós.
As vezes lembro dos anos que antecederam os anos 2000, principalmente aquela década de 90 e vejo como se tais anos fossem o aquecimento para o que viria. Anos para que as peças se preparassem, se azeitassem, para se encaixarem com perfeição no início do século seguinte. Anos 90 foram tempos de descobertas e de espanto para minha alma, que nunca mais se acalmou, e que me trazem mais do que memória, trazem gratidão a tantos artistas e pessoas que a maioria sequer conheci, mas em nada diminui minha admiração e respeito, outros que tive o privilégio de conhecer, dividir uma cerveja, receber em casa, viajar junto e me sentir abençoado eu diria pelas companhias. Tenho que citar peças que me vêm à memória, como "Macário, o Afortunado", "Marat/Sade", "Dr. Fausto" do Terreira da Tribo, "A Bota e sua Meia", e tantos, mas tantos artistas fantásticos, que me reenchem o coração só de lembrar do que tive o privilégio de viver. Vale lembrar da Rádio Esmeralda, do Tangos e Tragédias, da Buffet Glória, da Salomé Decapitada, do Bailei na Curva, me ajudem a lembrar de mais do que vimos nos anos 90 e 2000.
Saudades do Psicoarte, da Bagasexta, onde todos se encontravam, do Mercatto D'arte, do Ossip - nem que seja da calçada, do Ocidente, da Lancheria do Parque, do Van Gogh, onde por várias vezes terminávamos a noite com uma canja, para recuperar a vida gasta em outros bares, da descoberta de Punta Del Diablo no início dos anos 2000, e era quase um segredo só nosso. Saudades do brique, do gazômetro, onde subi no palco pela primeira vez para ser o mordomo amante da baronesa. Saudades daquela Porto Alegre que nos pertencia, pela qual caminhávamos livres, pelo menos acreditávamos que éramos, na qual nunca nos perdemos, pois não se perde quando se está em casa.
Foi só um texto simples que li hoje de manhã, e que, acreditem, falava da humanidade e de gatos. E tudo isso, todos esses nomes, artes, lugares, pessoas, peças, muito mais do que dei conta de escrever, não pararam de me visitar o dia inteiro. E foi lindo viver naquela Porto Alegre novamente, por mais um dia, aqui, dentro de mim.

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