O Caminho do Meio e o Meio do Caminho

Você já deve ter ouvido falar do Caminho do Meio. Caso contrário, sugiro que procure informações, pois lhe será, no mínimo, interessante, se não for revelador. Essa expressão foi criado por Siddhartha Gautama para descrever o caminho que leva à libertação ou à iluminação. Este caminho é aquele que procura pela harmonia e moderação, evitando extremos. Ele não utiliza noções de bem e de mal e é equidistante entre o rigor excessivo e a excessiva permissividade. É o estado em que dizem que fica claro as dualidades existentes no mundo e como elas são perigosas, independentemente de serem consideradas “do bem” ou “do mal”: isso faz pouca diferença. Seguindo esse caminho, dizem, você se livra da ganância, do ódio e da ilusão, que são consideradas as raízes dos maiores sofrimentos que temos. Neste caminho você não ficará feliz demais acreditando ser o melhor, quando alcança vitórias, pois sabe que elas são passageiras; assim como não se desperará nas derrotas, pois sabe que elas também passarão. Esse caminho foge do binário, do certo e errado, e lhe provoca e inspira diariamente. 


Penso neste conceito além do ser humano e o tento levar a um nível de nação. Lembro dos países escandinavos (Dinamarca, Islândia, Noruega, Suécia e Finlândia). Estes países são oficialmente países capitalistas, com livre mercado e tudo que se prega como vantagens indiscutíveis do tal sistema. Porém, nestes mesmos países, temos uma quantidade absurda de serviços sociais de alta qualidade, incluindo aqui educação e saúde gratuitos, assim como previdência e aposentadoria também sendo públicos, um número impressionante de trabalhadores sindicalizados (beira os 90%), sendo que esses sindicatos também participam de serviços sociais provendo, por exemplo, auxilio desemprego. Para manter todos esses serviços não há segredo, mas dois fatores decisivos: alta taxa de impostos (próximo aos 50%) e baixíssimo nível de corrupção. Resumindo: são países capitalistas no qual a população deixa cerca de 50% de seus salários para o governo (50%!!!) em troca de serviços públicos de alta qualidade, que tratam todos – dos CEOs até os trabalhadores mais simples – de forma igual, como todo serviço público deveria fazê-lo. Como consequencia desses altos impostos, você provavelmente nunca deve ter ouvido falar de nenhum multi-milionário vindo daqueles países. Se olhar a lista das pessoas mais ricas do mundo, dificilmente você verá alguém desses países. Como consequências desses altos impostos sendo bem aplicados em serviços sociais (o que alguns insistem em chamar de esmola no Brasil) você também nunca vê esses países listados em relatórios sobre pobreza, fome, miséria, crises, etc. Eu diria que são países capitalistas que seguem com maestria e liberdade princípios básicos do socialismo (como se esses fossem os dois únicos modelos possíveis e extremos). Ou seja, minha análise desses países é que eles estão sendo capazes de seguir o caminho do meio e estão sempre figurando entre os países de melhor qualidade de vida do mundo (normalmente estes cinco países estão entre os dez primeiros) e de maior índice de felicidade também (no último relatório, de março de 2021, estes 5 países estão entre as 6 primeiras colocações, tendo apenas a Holanda, em quinto lugar, entre eles - país também capitalista e com políticas sociais fortes). 


Apesar de soar parecido e ter as mesmas palavras, este Caminho do Meio é muito diferente do Meio do Caminho. A pessoa do Meio do Caminho é a pessoa que empata, é a pessoa que não decide, é a pessoa que segue o bando sem pensar e simplifica sua vida,s e deixando levar para onde a manada vai, para onde o vento assopra, seguindo ilusoriamente consciente o insconciente coletivo. Lembre-se de que no meio do caminha havia uma pedra e assim é quem fica no meio do caminho: uma pedra, um estorvo, um quase nada que atrapalha, sem se satisfazer. Do meio do caminho onde está fica batendo cabeça entre os extremos, pois não vê que há uma infinitiva de possibilidades entre o 0 e o 1, entre o bem e o mal, entre o certo e o errado. Segue acreditando nestas verdades infinitas e vira um peso, às vezes temporariamente útil, mas sem valor para si ou para ninguém. 


Se me permitem, levarei a mesma analogia a nações e tenho aqui que pensar no nosso país. Mais do que nunca, esta mentalidade de meio do caminho se escancarou durante esta pandemia. Enquanto vários países deram exemplo de como agir, como cuidar e instruir a população, as lideranças brasileiras ficaram no meio do caminho. Criou-se um lockdown que não foi seguido pelas próprias autoridades e que deixaram o povo perdido entre o ficar em casa ou ir trabalhar para salvar a economia. E esta ladainha segue há mais de um ano. Se o lockdown tivesse sido feito corretamente, com liderança, como se deve ter, em um ou dois meses, a pandemia estaria controlada e a economia já começaria a se recuperar. Porém, o que está acontecendo é que estamos no meio do caminho, sendo um estorvo, uma pedra, para todo o mundo e para nós mesmos. Não se faz o lockdown seriamente, o que não resolve muito para a pandemia e segue atrapalhando a economia. Perdidos no meio do caminho, batemos cabeça de um lado para o outro, junto com nossos líderes que, por incompetência ou má fé, seguem completamente perdidos, agindo irracionalmente. A briga estre dois extremos não é equilibrio, mas gangorra, por medo de perder, ninguém ganha, por não agir, se age mal. Infeizmente assim está o Brasil, no meio do caminho, quando deveria estar no caminho do meio.  

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