Empilhando Café

Sabe quando a coincidência é muito grande para ser só coincidência?

Hoje participei de uma atividade de voluntariado. Junto com outros colegas de trabalho, fomos trabalhar por algumas horas neste banco de alimentos chamado Second Harvest Heartland. Já havia voluntariado lá algumas vezes no passado. O trabalho normalmente é simples, apesar de importante para eles. Normalmente eles recebem doações de alimentos, ou compram alimentos em grandes quantidades com as doações de dinheiro que recebem e usam a mão de obra de voluntários para dividir, separar, organizar, empacotar, etc, os alimentos. As vezes a atividade é preparar caixas com cestas básicas, enfim, de acordo com o que eles recebem, a atividade muda um pouco, mas é desse tipo. Por exemplo, pegar fardos de pacotes de arroz, de feijão, e outros alimentos e organizar em caixas menores que serão distribuídas para famílias necessitadas.

Bem, toda essa introdução se faz necessária para deixar bem claro o que eu esperava quando fui lá: iria trabalhar com algum tipo de alimento, organizando da forma que nos instruíssem. Chegamos lá e, como de costume, separaram os voluntários presentes em grupos, conforme as atividades que tinham. Meu grupo, para minha surpresa, ficou encarregado de trabalhar com café. Havia uma pilha de caixas com doações de café, de diferentes formatos e tamanhos, e nossa equipe abria essas caixas e organizava os pacotes de café de acordo com a apresentação (1/4 quilo, 1/2 quilo, 1 quilo, cápsulas)  em caixas menores para serem distribuídas futuramente em doações. Digo que foi surpresa  porque não havia imaginado trabalhar com café. Como citei no meu exemplo, fui lá imaginando trabalhar com arroz, feijão, batata, ou até mesmo cebola, como o outro grupo que estava conosco estava fazendo. Café, apesar de eu entender que é muito importante para muitos, eu não imaginaria que seria um produto que seria doado. Mas, tudo bem, se esse era o trabalho para que precisavam de mim, vamos lá ficar organizando caixas de café, afinal já fiz muito disso na minha vida.


 Sim, já fiz muito disso. Provavelmente pela primeira vez há quase exatos 38 anos, na última semana de novembro de 1981, quando acompanhei meu pai em sua primeira entrega de café em São Paulo. Na noite anterior estudamos o mapa de cidade - vocês se lembram que era assim que fazíamos na era pré-GPS. Depois de achar o endereço da entrega, ele traçou sua rota e me explicou por onde entraríamos na Marginal Tietê, vindo da Rodovia dos Bandeirantes. Seguiríamos pela marginal até próximo ao Parque São Jorge, ou “o campo dos inimigo”, como ele falava. Pegaríamos um tal de Viaduto Aricanduva, passaríamos ao lado do cemitério da Vila Formosa, que, aprendi naquela noite, era o maior cemitério do Brasil, e não muito longe dali, chegaríamos ao destino onde a entrega dos mil quilos de café seria feita.

Como acabou virando sua rotina, levantamos às quatro da manhã e partimos para aquela viagem, quase aventura. Quando chegamos na marginal, mapa no meu colo, eu era responsável por garantir que seguiríamos na rota traçada na noite anterior. Nesse momento, meu pai lhe contaria como ele quase se perdeu, mas eu estava atento e o salvei - um pouco de exagero dele, que entendo como uma forma de amor. Chegando ao local da entrega, eu não precisaria fazer nada, além de esperar que descarregassem a kombi e então voltarmos para Pinhal, mas eu nunca fui de esperar. Aproveitei minha pouca altura de menino de 11 anos que conseguia ficar de pé dentro da perua, e me pus a ajudar as pessoas que descarregavam o carro, pegando os pacotes de 5 quilos de café de dentro da perua e arremessando para quem estava próximo à porta, que arremessava para meu pai que montava a pilha de pacotes de café; duzentos pacotes como você já deve ter feito a conta.

Essa história se repetiu inúmeras vezes por muitos anos. Meu pai começou a fazer essa mesma viagem três, quatro, até cinco vezes por semana. Nos dias em que coincidia, como naquele primeiro dia, de eu não ter aula, eu era companhia certa. Quatro da manhã de pé, kombi cheirando a café ainda morno, que havia sido torrado no final do dia anterior, pouco mais de duas horas de estradas, com direito a alguns cafés e um certeiro misto quente no Lago Azul, chegar na Vila Formosa, descarregar o café e voltar para casa. Eu me tornei quase mestre em empilhar e desempilhar café. Serviço parecido com o que fiz hoje, para minha surpresa. Justamente hoje, dia 4 de dezembro, no dia em que ele completaria 86 anos.

Não pode ter sido só coincidência.

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