Cuidado, meu jovem
Meu jovem,
você jurou trabalhar para o benefício dos doentes, mas é melhor que o faça um a
um, casa a casa, não tente curar uma nação. Num mundo doente, tal médico é
tratado como louco e você pode acabar sendo morto distante de casa, num pequeno lugarejo na província de Vallegrande no meio do nada em plena Bolívia, enquanto
tentava curar outro pedaço do mundo.
Você, jovem
doutor, jurou integridade, jurou assistir aos que precisam e, acima de tudo, desprezar sua própria pessoa em benefício dos que precisam, e sempre o fará; e será admirado e odiado por isso. Também jurou evitar a sedução das mulheres, dos
homens, das crianças e dos servos e falhará com todos, principalmente com esses últimos.
Tome cuidado,
meu amigo, disfarce sua inteligência e pare de ler tanto, trabalhe quieto em
algum consultório perdido num bairro pobre de Rosário: podem achar que você é
muito intelectual para um latino – eles não gostam disso, lhe garanto.
Você veio de
uma família com boas condições, para que viajar em tão precárias condições e
visitar leprosos peruanos, se preocupar com mineiros chilenos, camponeses colombianos
ou fugitivos injustiçados no deserto de Atacama? Vá para casa cuidar de sua
vida, investir a herança de sua família em algo seguro e assim contribuir de
modo positivo para a sociedade. Vá jogar xadrez com seu pai, ler Pablo Neruda para
sua namorada, deixe o mundo em paz – será melhor assim.
Para que se
expor, meu jovem, para que entrar contato com a pobreza, fome e doenças, para que
se indignar com a incapacidade de tratar uma criança por falta de dinheiro e se
estupefar pela contínua fome e não achar normal um pai aceitar a perda de um
filho como um acidente sem importância?
Não deixe o
reino da medicina, meu jovem Ernesto. Eles podem te matar.

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