Dragões Conhecem o Paraíso
Caio Fernando Abreu disse que havia um dragão que morava com ele. Depois, se corrigiu e disse que não era verdade, que nunca houvera dragão algum. Eu também não moro, nem nunca morei com nenhum dragão, nem nunca sequer tive contato com nenhum deles, mas isso também, de certa forma, não é totalmente verdade. O tal dragão de Caio cheirava a hortelã e alecrim, o meu não. O meu cheira bem, cheira perfume mesmo, do bom; artificial, é claro. Dragão que se preza finge que não, mas se preocupa com a opinião alheia e se sentiria mal cheirando cheiros naturais como hortelã e alecrim, embora, no fundo, ele preferisse cheirar assim, quem sabe cheiro de mato, de mato molhado depois da chuva.
Meu dragão, também diferente do outro, não é barulhento e nem nunca acordou vizinho algum, nenhum bebê sequer; ele é socialmente correto e disfarça muito bem suas chamas, indo espirrar sempre lá na sala da televisão, com a cabeça enfiada na lareira, com o pescoço curvado e voltado para a chaminé (só uma vez passei pelo constrangimento de ter que explicar para minha vizinha, a gorda da dona Emília, porque que às vezes mantenho minha lareira acesa, mesmo em noites de verão, pois ela vira muita fumaça na noite anterior).
Também não há nada de invisibilidade no meu dragão. Ele é, sim, quieto e quase dissimulado, o que o faz passar desapercebido na maioria das vezes. Mas ele é sim visível a olhos atentos, o que não é comum em nossos dias, pelo menos não é comum entre as pessoas que conheço, ou nos meios que freqüento, ou ainda entre as poucas pessoas que me visitam. Poucos até hoje o viram, ou pelo menos foram poucos os que não puderam disfarçar quando se viram assim, frente a frente com ele, sozinhos, sem ter como fugir. Quase sempre o atacam primeiro, com pedras, com fogo, com o que têm ao alcance de suas mãos, ou até mesmo com palavras, o que sempre o machuca mais, pois elas varam sua pele, por entre as escamas. Mas meu dragão, quieto e dissimulado como é, finge que está tudo bem e raramente revida. Ele tem medo de seu revide, pois ele sabe muito bem que pode ser fatal. Desconfio de que sua pele grossa, quase casca, nem se machuca mais. Ninguém seria capaz de agir tão naturalmente após ser atacado, como ele faz. Bem, mas ele é um dragão.
Meu dragão às vezes voa, mas ele sempre volta quando chamado. Diferente do dragão de Caio, ele sente um tanto de carência inconfessa que o impede de fazer com que realmente se sinta saudade dele. Não gosta de criar sofrimento, nem ansiedade nos outros, principalmente naqueles que lhe são caros. Ele beira à inocência e ingenuidade e jamais jogaria com sentimentos alheios. Nada de se fazer de difícil, nada de brincar com as pessoas, nada de fingir que esqueceu para esperar ser chamado. Seus olhos vermelhos e grandes não conseguem esconder o que ele sente, pois, por mais estranho que isso pareça, eles também são transparentes e é quase possível se ver sua alma através deles. E, teimoso como um bom dragão é, ele raramente muda seus sentimentos. Ele entende muito bem que é difícil de se amar um dragão, que tal sentimento deve ser assustador, e então ele se coloca no lugar das outras pessoas e acha que também jogaria o que tivesse em suas mãos, quando se visse assim, frente a frente com um dragão como ele, quando se visse quase se apaixonando por um ser assustador e perigoso como ele. Ninguém em sã consciência poderia querer isso para si. Dragões são feitos para serem admirados, para se pegar uma carona de vez em quando e voar junto, para mostrar para os amigos, mas não para levar para casa. Tem-se medo de que ele destruiria tudo no primeiro espirro descuidado, reduzindo tudo a cinzas.
De similar entre os dois dragões são as flores. Elas simplesmente o amam. Algo é criado naquele silêncio entre ele e elas, e elas ficam exuberantes em sua presença e custam a morrer. E ele, acredite, se estristece a cada vez que vê uma flor morrendo. Ele as acaricia, mas não evita que cada uma delas se vá. Ele só silencia em respeito àquela pequena vida tão frágil que se foi, com a consciência da devida alegria que ele deveria sentir, mas nem sempre sentida, por ela ter existido e ter compartilhado um pouco de sua vida com ele.
Há dias que ele sai de casa para voar por ai, para relaxar a cabeça e tranquilizar o coração, como ele diz. Mas descobri que ele voa para soltar seu fogo onde ninguém o veja, para evitar queimar alguém por engano. Um dia enfiou a cabeça num lago congelado e a água borbulhou com seu suspiro angustiado. Nesse dia, ele chegou em casa, com aquelas lágrimas grossas que só ele tem escorrendo pelo rosto, pingando no queixo, e não quis falar sobre o assunto, disse que não eram lágrimas, mas água.
Assim como eu, ele também gosta de acordar de manhã cedinho, abrir a janela e desejar doçuras, sete vezes ou mais. Não por sorte, mas o deseja por desejar apenas, por ser o melhor que ele pode fazer. Não se cansa de assim fazer, embora eu duvide que ele já tenha provado da doçura que tanto deseja. Posso estar enganado, pode ser que seja só da minha cabeça, pode ser que na verdade a doçura que ele deseja diariamente nem seja para ele mesmo. Só sei que o vejo diariamente fazendo esta quase oração de desejo de doçura e de beleza ao abrir sua janela e ao fechá-la antes de dormir, mas nunca me atrevi a perguntar se é para ele ou se para alguma outra pessoa que ele o deseja. Eu o faria por mim, mas ele é um dragão, nunca se sabe dos sentimentos de um ser assim.
Mas a principal diferença entre o meu dragão de verdade e o de mentira de Caio é que o meu conhece sim o paraíso, mas nunca me contou como é.
E “tudo é tão vago como se não fosse nada.”

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