Uma Pedalada de Cada Vez

No início foi uma questão de saúde, mas agora já virou um hábito. Quase todos os dias pego minha bicicleta e pedalo por cerca de uma hora pelo menos. Às vezes só vou e volto, sem paradas, trinta minutos indo, trinta minutos voltando, cerca de dezesseis, dezoito quilômetros na beira do rio. Às vezes, como ontem, decido ir mais longe e então paro em algum parque, ou na beira de algum lago e descanso antes de pedalar de volta.

Sabe, sempre tenho a sensação de estar indo muito mais devagar do que os outros ciclistas, mas não sei se isso é verdade ou se esta sensação é fruto de alguma ansiedade incurável dentro de mim, uma vontade de já estar no destino, antes mesmo da viagem começar. Mas a bicicleta, assim como a vida, tem me ensinado a não ter pressa, é uma pedalada de cada vez. Acho que sou mais lento que a maioria mesmo. Mas ontem, como dizia, decidi me arriscar e ir mais longe. Isto fez minha pedalada ainda mais lenta que o normal, o meu normal que já é lento. E foi bom. Descobri que há muito mais do que eu já tinha percebido no caminho. Encontrei até um bebedouro bem no meio da trilha que faço, num ponto onde normalmente passo esbaforido e sem prestar atenção. E é bem assim, quando a gente precisa, tem sempre uma fonte para matar nossa sede, mas muitas vezes estamos muito envolvidos no nosso pedalar, angustiados com a árdua tarefa e rotina em frente de nós e não vemos a água ali, disponível ao nosso lado.

Há uma certa estranheza quando a gente, que já estava mais do que acostumado a ser sujeito singular e decidir tudo sozinho, se vê pensando no futuro em plural, abrindo espaços e possibilidades para alguém e para algo que você nem sabe direito como será, se será, nem está totalmente certo do que quer ou sente, mas se guia por aquele sentimento quieto e calado que lhe diz que será lindo e, quando o susto ou medo aparecem, você fecha os olhos e lembra de Caio, “que seja doce,” e segue nos seus sonhos. Será lindo como for, pois é como tem sido.

Uma pedalada de cada vez, assim seguimos, sabendo que o destino nunca é cem por cento certo e que isso o faz ainda mais bonito. Há sempre algo de surpresa quando olhamos o já conhecido com olhos novos e disponíveis. Temos que aceitar que quem mudou (ou muda) somos nós, não o observado. Ele sempre esteve ali, mas não o víamos desta forma.

Quando parei, já quase na avenida de casa, o sol estava no seu caminho natural, se escondendo atrás das árvores lá do outro lado do rio. Por algum motivo que não entendo, ele tem a mania de ficar mais bonito bem nessa hora, bem na hora do adeus. Teve o céu à sua disposição durante o dia inteiro, mas agora, nos últimos centímetros de céu, resolve dar um show, trocar de cores, alaranjar, avermelhar, ficar rosa, pintar o céu, as nuvens, o contorno dos prédios distante lá do centro de Minneapolis, tudo muda de cor, de tom, e então ele se vai-se embora, deixando uma certa melancolia no ar. Mas amanhã ele estará de volta.

E então você se dá conta que a melhor forma de receber é dar. Quando você está disponível a oferecer e a aceitar, o que não é fácil como parece, é que você recebe, mesmo de surpresa, mesmo sem saber que precisava, o que sempre precisou, o que sua alma, mais do que sua boca, gritava de vontade ou de necessidade mesmo. E você só se dá conta disso quando realmente dá sem esperar nada de volta. Só quando você já deixou de acreditar nisso é que você tem a prova real de que é bem assim mesmo, e que é natural, como se tivesse sempre sido assim. E isto não é para ser nenhum texto de auto-ajuda, não. É só a constatação de um fato bem sabido, mas esquecido, e novamente comprovado.

E na bicicleta de novo, as últimas pedaladas são morro acima, mas a alegria de ter vencido todo o caminho e estar voltando, quase chegando em casa, lhe dá a motivação e energia necessárias para pedalar forte e decidido, grato por mais um dia e mais umas pedaladas.

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