Sábado, 23 de Agosto de 2008

Quantas aves há na nossa frente?

Olha só,

Você já ficou parado a acompanhar uma ave voando? Só alguns segundos, até ela sumir?

Se ainda não o fez, podes imaginar: no céu, uma ave, a que quiser, voa. Você a acompanha com os olhos, enquanto ela vai, cada vez mais distante. Num milésimo de segundo, ela some. Você sabe que ela ainda está por ali, mas ela sumiu.

Nisto chega alguém, eu, e você, com entusiasmo, diz que há uma ave ali, bem ali, ma que não dá para ver. Eu acreditaria? Alguém acreditaria?

Segundos depois, até você começa a duvidar da existência dela. Você que a viu, a acompanhou, passa a achar que ela já foi, que não existe mais.

Quantas vezes, quantas aves já vimos, acompanhamos até sumir, cada batida de suas asas e depois duvidamos de sua existência?

Falo só de nós, que já comprovamos que ela existe, nem ouso falar daqueles que nunca a viram, que tentamos convencer.

Olho para o horizonte, para o mais distante que posso e penso, imagino: quantas aves há ali, na minha frente, e eu não vejo? Quantas já vi e agora duvido?

Foi um privilégio!

Quarta-feira, 20 de Agosto de 2008

Estrada do Sol

Olha só,

Não é que me peguei chorando, ao ouvir o Expresso 25 cantando Estrada do Sol?

“...os pingos da chuva que ontem caiu ainda estão a brilhar...”

Tom Jobim, Dolores Duran e Expresso 25... muita arte junto...

“... vamos sair por ai, sem pensar no que foi que sonhei, que chorei, que sofri...”

Que privilégio ter acesso a isto tudo, que privilégio falar a mesma língua, que privilégio entender, que privilégio sentir.

“A nossa manhã já nos fez esquecer, me dê a mão, vamos sair pra ver o sol...”

Não sei se sei exatamente o motivo, mas desta vez me emocionei mais do que das outras.

Terminou a faixa e começou a seguinte:

“Cuidar dum pé de milho, que demora na semente...”

Falar o quê? Não há nada para entender, só sentimento. Então, ou se sente, ou não.

Agora a música é Lambada de Serpente, de Djavan: “Quem tem amor ausente já viveu a minha dor.”

Foi um privilégio!

Segunda-feira, 18 de Agosto de 2008

Fotógrafo

Olha só,

O fotógrafo não nos mostra, em suas fotos, a realidade. Apesar disto, ele nos mostra uma realidade.

Não há um compromisso com a verdade, mas com a arte, que sempre mostra uma verdade, sim, não necessariamente a do fotógrafo, ou a de quem vê a foto.

O que vemos é um ângulo, um pedaço, não necessariamente o mesmo que ele viu, às vezes só parte, às vezes sob algum efeito de lente, ou de luz.

Num parque florido, ele pode fotografar uma pedra e pensarmos que só havia pedras no parque. E ao contrário, em algum lugar muito feio e pobre, ele pode encontrar algo bonito, seja pelo ângulo, ou o que for e nos fazer pensar que tudo era lindo. Em ambos os casos, o fotógrafo não mente, apenas mostra uma perspectiva, um pedaço.

Não podemos, ao conhecer a realidade, sob nossos olhos, reclamar com o fotógrafo, por não nos ter mostrado tudo, não é esse seu objetivo. O que ele quer é uma boa foto, o que ele precisa é mostrar sua arte. Não é possível para ele fotografar algo que não seja real, mas pode não ser a realidade.

Fazer uma boa foto de algo bonito deve ser mais fácil, a arte me parece fazê-la onde não há aparente beleza, onde ninguém quis fotografar. Buscar o belo no feio, no pobre.

Às vezes, me pego escrevendo assim, fotografias.

Foi um privilégio!