Dias depois que aprendi a voar, vivi um dia muito triste, um dia muito forte, muito intenso. O dia em que descobri que não tinha ninho
Neste dia, acordei e voltei a sentir medo.
Parecia que eu desaprendera. Parecia que eu nunca voara, que só tinha aproveitado algum vento forte, eu achava.
Mas isso já fazia dias e eu estava ali, no dia em que descobri que não tinha ninho.
Olhei para o mar, que não acabava mais, e lá no fim fazia volta e começava a subir, mas ai já era céu, eu achava.
Mas era um céu tão azul, que se confundia com o mar celeste e eu não sabia identificar onde terminava um e começava o outro. Era tudo uma coisa só a iniciar ali na minha frente, ir até o fim e depois fazer a volta sobre minha cabeça.
No dia em que descobri que não tinha ninho, eu também não sabia como chegara até ali. Provavelmente voando, não sabia como e nem sabia onde estava.
Só sabia que neste lugar havia um mar azul da cor do céu e um céu azul, bem azul, como o mar da minha frente. Só sei que neste lugar havia uma praia, uma praia de areia fofa, e que tinha uma árvore que fazia sombra, bem onde eu acordei. Bem onde eu acordei, naquele dia, e voltei a duvidar de que era capaz de voar. No dia em que descobri que não tinha ninho, duvidei que era capaz de voar e senti medo.
Não ventava, ele não estava por perto e não havia nenhuma outra ave próxima a mim. Era eu sozinho. Eu, a praia embaixo, o mar na frente e aquele céu em cima de mim. E, dentro de mim, só dúvida e medo.
O que eu queria, naquela hora, naquele dia, no dia em que descobri que não tinha ninho, era voltar pra casa, mas me lembrei do que ele me falou:
_ Ave como você não tem ninho. Só tem que voar.
_ Mas e o meu ninho?
_ Que ninho? Nunca tiveste um, nem nunca o terás.
_ Nunca?
_ Isto não é coisa pra ti. É para as outras, a maioria, mas não pra ti. Não queiras, nem te conformes com isto.
_ Mas eu sempre sonhei com um, sempre sonhei com meu ninho, num lugar bom, em paz...
_ Já disse, se quiseres voar o teu vôo, e o deves fazer, não terás ninho.
_ Então nem sei se quero...
_ Não fale do que colocaram na tua boca. Ouça teu coração, ave!
_ Como?
_ Dentro de ti está escrito o que és. Deves ler e obedecer, se quiseres ser feliz.
_ Mas não posso ser feliz no meu ninho?
_ Nunca serás, já disse. Ave que nasceu para voar nunca será feliz num ninho. Não te iludas.
Enquanto lembrava de suas palavras, lembrei de como cheguei ali, lembrei do que me passara no dia anterior, dos muitos ninhos que vi, mas não eram meus, de muitos com que sonhei, mas não eram meus, de muitos que pensei que fossem, mas não eram meus.
E, principalmente, lembrei do ninho que vira no dia anterior, que, definitivamente, não era meu, nem nunca seria.
E chorei. No dia em que descobri que não tinha ninho, eu chorei.
Sim, na areia daquela praia, olhos naquele céu-mar de azul indescritível e limite impreciso, lembrei de minha sina e, ao mesmo tempo, senti-me incapaz de segui-la e chorei.
Assim dormi, naquele mesmo lugar, nem caminhar caminhei.
Passei o dia a lembrar e chorar. Lembrei de lugares, de pessoas, mas, principalmente, do que ele me falava, mas, principalmente, dos ninhos que não eram meus e já nem sei mais do que lembrei.
E chorei por tudo isso.
O dia passou e eu, sem coragem e com medo, no mesmo lugar, dormi.
Acordei e dormi assim várias vezes, vários dias, e, a cada dia, menos lembranças e menos lágrimas pesavam em minhas asas. Mas ainda segui ali, no mesmo lugar, por mais alguns dias.
Mas teve um dia, sim teve um dia, em que me dei conta de que era assim mesmo. Não havia mais ele, não haveria outra ave a me guiar, como naquele primeiro dia. Era eu sozinho e sem ninho. E, sim, eu podia e devia voar.
No que em que descobri que não tinha ninho, lembrei que podia e devia voar.
Na minha frente, era o mesmo céu e o mesmo mar, que clareavam e escureciam juntos, dia após dia. À noite era mais fácil diferenciar, pois as estrelas refletidas no mar se mexiam mais do que às do céu. Mas mesmo assim, havia dúvidas sobre o limite entre um e outro.
E continuei ali mais uns dias, mas agora sem lembranças, sem lágrimas, só a olhar o ar, sentir o sol e ler o coração.
Neste dia, no dia em que descobri que não tinha ninho, decidi que, mesmo que não tivesse ninho, eu teria meu canto, um lugar só meu, único, aonde eu pudesse ir sempre, sempre que precisasse ler meu coração.
E este lugar era ali, bem ali onde eu estava.
Não precisava ser necessariamente ali, mas tinha que ser num lugar de frente para o mar, debaixo do céu, ambos bem azuis, com os pés na areia.
Também podia ser como no primeiro dia, ao lado de uma fonte que soprasse sua água para o lado, tamanho o vento, e de frente para um sol branco e gelado, com os pés na grama.
Também podia ser em qualquer lugar, que tivesse vida, de preferência água, um céu, ou sol, uma terra, areia, ou grama, sob os pés.
E se não fosse possível nada disso, decidi que meu lugar, que meu canto, que meu ninho, estaria dentro de mim, iria comigo para onde eu fosse. E ali, onde eu estivesse, eu entraria nele, me sentiria em paz, e leria meu coração.
No dia em que descobri que não tinha ninho, eu descobri tudo isso e não chorei mais.
E assim, naquele dia, após construir o meu próprio ninho, voei. Nem sei como, mas enquanto defini como seria meu ninho, conforme o descrevia, na praia, na fonte, dentro de mim, voei.
Respirei fundo, muito fundo, naquele vôo, e voei baixo, de forma a ver todos os ninhos que não eram meus, de forma a ver a infinidade de ninhos que posso ter, onde quiser.
E voei, sim, naquele dia eu voei, no dia em que descobri que não tinha ninho, eu voei o dia inteiro e voei muitos dias.
Foi assim que ela me contou.
quarta-feira, 8 de outubro de 2008
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