“Sambando na lama de sapato branco, glorioso” (Chico Buarque)
Olha só,
Há 20 anos ouço esta música e ela, de certa forma, me incomoda. Sempre me pergunto o significado disto, que me parece ser algo além do óbvio.
Por que na lama? Por que sapato branco?
Pensei em algumas explicações, sem saber qual é a correta, sem nem mesmo saber se existe uma correta. Acredito que não.
Umas das explicações que achei foi a de mostrar o desprendimento do artista, que não se preocupa com o sapato branco e samba mesmo na lama. O sapato eu limpo depois, agora vamos sambar.
Outra seria da paixão pela arte. Quem sabe a leveza do artista que samba sem sujar os sapatos. Ou que não se importa com a roupa, com o lugar, sapato branco na lama, tanto faz, quero fazer minha arte. Se o que a vida me oferece é um sapato branco na lama, vamos lá.
E uma última explicação que me ocorre agora vem do comprometimento. Ele está lá para sambar. Colocou seu melhor sapato, de salão, sapato branco. Ao invés de um palco digno, lhe oferecem um chão de lama. Ele é artista, ele samba.
Não importa qual seja a explicação certa, como já disse, mesmo porque elas se confundem e se completam.
Às vezes, estamos assim. Hoje eu estou. De sapato branco, cantando e sambando na lama. Seja a lama que for.
Naquele momento em que pensamos que esta lama que nos oferecem para sambar não é digna de nossos sapatos brancos, mas mesmo assim sambamos, gloriosos. E ai é uma mistura de desprendimento, amor pela arte, pela vida e comprometimento, afinal “um grande artista tem que dar o que tem e o que não tem”.
Não importa se estamos em terra de sapo, se, por dentro, molambo, filó por fora. O show não pode parar, não importa o palco, não importa a platéia.
E assim, com ou sem esta consciência, debaixo de chuva, com lama sob os pés, respiro fundo e, com um pouco de imaginação, sambo na lama sem tocar o chão.
“E o tal ditado, como é? Festa acabada, músicos a pé.”
Foi um privilégio!
terça-feira, 22 de julho de 2008
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